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Clube Cruzeiro Geral - PHD Opinião Política

Cruzeiro: Páginas Heroicas… destroçadas

Páginas Heroicas

Não tive medo.

Veio e assentou-se. Na beirada de minha cama. Notei que estava meio encurvado, cansado. Parecia muito cansado. Sabia o que vinha acontecendo…

Claro ! Claro que ele sabia de tudo – como sempre soube. Ele, como nenhum outro, soube de todas as coisas que se passavam enquanto foi ele quem comandava. E sabia como comandar, em tudo ele sabia o que era melhor para fazer, como tudo podia sair melhor, se se fizesse assim e não assado…

Era sonho ? Eu vi algum vulto ?

Aí, me lembrei. Não, não era lembrança: vi tudo outra vez, com estes olhos que a terra há de comer.

Vi-me de novo, de joelhos, na beirada daquele berço de bebê recém-nascido. Todos os moradores da casa haviam saído e só eu (que ainda amamentava) fiquei porque, além de ter de amamentar minha primeira filha, ainda teria de complementar a mamada com uma mamadeira de leite em pó. Meu leite já rareava, menos de um mês após o parto. Talvez porque eu pensasse demais. Eu sempre fazia tudo em demasia. Pensava demais, chorava demais, ria demais da conta, amava como ninguém nunca amou… Sozinha !

Naquela casa imensa. Como era imensa a casa de meu sogro onde nós morávamos, enquanto não ficasse pronta nossa moradia. Enquanto eu estudava, ele trabalhava e, além de tudo, ali naquele casarão eu podia deixar minha primeira filha aos cuidados da minha sogra, que amava tanto quanto eu minha primeira filha. Também, pudera ! Minha sogra só tivera uma filha em seis gravidezes, embora desejasse muito meninas. E eu estudava de manhã e trabalhava à tarde.

Ali, no dia 30 de novembro de 1966, os demais moradores da casa faziam parte dos 90 mil espectadores que lotavam o Mineirão. De joelhos, dando mamadeira a minha filha de menos de um mês pela grade do berço, ali eu ouvi pelo rádio cada um dos muitos gols do Cruzeiro.

Cruzeiro 6 X 2 Santos !!!

O velho me olhou profundamente e balançou a cabeça como quem balança pensamentos que não quer pensar. -“Está que nem eu” – achei. Também não acredito mais que todos temos de passar por isso, tanto sonho desperdiçado, tanto grito escorado na garganta, grito que não se grita mais, sonho de estrelas num céu azul profundo.

Quem foi que te fez azul assim? Quem aprofundou o azul que suporta suas cinco estrelas, quem foi que o fez com esse azul e essas cinco estrelas? Quem o chamou com tantas lágrimas?

Cruzeiro

Estão acabando com você, meu Cruzeiro. Não basta a humilhação, não bastam os olhos baixos, não basta a roubalheira, agora ainda querem que eu suporte a mentira porque acostumaram a mentir.

Mentem sobre o que aconteceu, mentem sobre quem foi que sequestrou nossos sonhos, nossas glórias, nosso peito, nosso hino, os passes, os Tostões, os Dirceus, os Natais? Ouço ainda o locutor: Neco. Hilton de Oliveira…

Aonde foi você Raul Plasmann? Quem o desarmou, Evaldo? Quem machucou Piazza, aquele que anulou Pelé? E Procópio?…e aquele “armário”, chamado Pedro Paulo, que não deixava ninguém passar, ninguém chutar em nossa área, mas se chutasse: — “Vai, Rauuulll !”. E — nem ligávamos para os insultos: “Vanderleia” pegava tudo! Abraçava a bola, a doce bola que embalava meus sonhos.

Mas ontem, outra vez, roubaram meus sonhos porque o apunhalaram outra vez, Cruzeiro.

Um “presidente” do Conselho Deliberativo nos foi imposto. Mais um para nos fazer chorar de vergonha e de medo de outras equipes. Só mais um.

Era madrugada e eu sonhei que ele veio e se assentou na beirada da minha cama.

O velho parecia cansado.

Eu, o reconheci: Felício Brandi !

Não será atribuindo à Toca da Raposa o seu honrado nome que resgatarão as páginas heroicas de um time que Brandi, no comando, tornou imortais.

Honrariam-no se seguissem o seu exemplo de decência.

Simples assim.

Sandra Starling

 

Imagem: Cruzeiro/Divulgação

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4 Replies to “Cruzeiro: Páginas Heroicas… destroçadas

    1. Dra Celeste,
      Assim como fez muito tempo atrás, por várias vezes, Sandra Starling nos brinda com textos puros, de legítimos cruzeirenses.
      A minha indignação só aumenta por ter, de certa forma, prevista esta destruição. Chamei de colapso e só recebi indiferença e crítica.
      Vitórias como a de ontem servem como cortina de fumaça para déspotas e seus aprendizes remunerados (conhecidos como influenciadores de redes sociais).
      E para empanar o brilhantismo de textos como este.

      1. Bom dia! Quando será que ficaremos livres da desonestidade e da busca pela obtenção de vantagens pessoais, desconectadas da ética e da moral? Os tempos humanos são outros, e o meio do futebol terá que acompanhar essa evolução, mais cedo ou mais tarde, por bem ou por constrangimento. Se cada um de nós fizer a sua parte, mesmo que pequena, podemos acelerar esse processo. Compreendo os argumentos do Presidente da Instituição, de imparcialidade e boa relação política com o Conselho, mas, no final das contas, penso que ele foi omisso. Observemos os prejuízos disso. Um abraço azul!

        1. MBA,
          ficarmos livres?
          Numa sociedade como a nossa, no Brasil, onde se mistura política, futebol, religião e as pessoas nãos abem separar nada? Ficarmos “livres” é utopia.
          No caso do presidente do Cruzeiro e seu discurso na mídias e rede sociais é só ME ENGANA QUE EU GOSTO. Caminha a passos largos para ser PIOR do que Gilvan…. está na luta atrás do título de Wagner Pires.

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