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Samuel Rosa: Ninguém daquela gestão era cruzeirense – UOL Esporte

“Nem precisa perguntar”
Cruzeirense Samuel Rosa responde se vai seguir acompanhando o Cruzeiro, que estreia hoje na Série B

 

O dia 8 de dezembro de 2019 está longe de ser o mais triste da minha vida. Longe, longe, longe. Eu só pensava uma coisa: isso é pura estatística. Uma hora, seu time vai cair. Aconteceu naquele dia.

Dos grandes times brasileiros, alguns até com título mundial, só três não caíram. O Cruzeiro se juntou à maioria. E é preciso dizer: caminhou para isso. Diretoria, estrutura, não é um fator único, é uma confluência de fatores, de tropeços, de pessoas mal intencionadas…

O torcedor tem que abrir o olho porque clube de futebol é trampolim para popularidade. Muita gente que não é cruzeirense se aproxima do time e usa para ambições pessoais. Naquela cúpula do Cruzeiro que foi rebaixado não salva ninguém. Cruzeirense, para mim, ali não tinha nenhum.

“Ninguém daquela gestão era cruzeirense”


Eu já desisti de fazer conta de finanças de time de futebol. Não tem lógica. Como o Cruzeiro passa anos jogando na Arena do Jacaré, quase cai para a segunda divisão e, logo depois, contrata um bando de jogadores caros, como Dagoberto, Júlio Baptista, Dedé?

Tudo bem que as estrelas daquele time eram Ricardo Goulart e Everton Ribeiro, que não foram tão caros, mas de onde veio esse dinheiro? Como o Cruzeiro tinha dinheiro naquele momento, se não tinha conquistado um título recente? Se não tinha tantas fontes de renda, se não tinha sócio-torcedor? Aí é bicampeão brasileiro e passa dois anos pagando dívidas. Por que o título de um Campeonato Brasileiro não pode catapultar um time mais para frente ainda?

Essa equação não entra na minha cabeça. Por que todo time tem que pagar contas quando ganha um título? O Corinthians teve que fazer isso também.

“Os podres do Cruzeiro eram muito, muito, muito graves”

Por mais que eu conhecesse os bastidores do clube, fiquei tão estupefato quanto a grande maioria dos cruzeirenses quando veio aquela matéria do Fantástico que mostrava as irregularidades daquela gestão. A gente não sabia o que acontecia por trás das cortinas.

Até achei que era perseguição. “Vão escolher um time todo domino para mostrar os problemas no Fantástico porque todo time tem seus podres”. A questão é que os do Cruzeiro eram muito, muito, muito graves. E terminou com o rebaixamento. A diretoria é a principal responsável por esse descenso.

O Cruzeiro vinha de uma década vitoriosa, mas aí tudo veio à tona. Coisas que existem no futebol e a gente não sabe como funciona. Eu me lembro de ver aquela matéria e pensar: ‘Nada de novo’. Tudo o que eu vi, jogador fatiado, empresário entrando em trambique de jogador, são coisas que estou acostumado a escutar.

“Eu fiquei imaginando quantas vezes entrei no palco sem receber cachê…”

Mas não é porque a culpa é da diretoria que você tira a responsabilidade dos atletas. O Cruzeiro tinha salários astronômicos, tinha grandes jogadores, de fama internacional. E não conseguiu ganhar de dois times praticamente rebaixados naquele momento. Se tivesse vencido Avaí e CSA na reta final do Brasileirão, não teria caído. Com todo respeito a essas duas equipes, mas elas vieram jogar no Mineirão praticamente rebaixadas. Não entra na minha cabeça o Cruzeiro não conseguir seis pontos. E o Cruzeiro só fez um.

Nesse momento, eu escutei que estava me iludindo. “Jogador que não recebe não joga”. E eu fiquei imaginando quantas vezes entrei no palco sem receber cachê. Até hoje eu faço isso, para instituições filantrópicas. Fiquei pensando como um Thiago Neves, um Fred, não batem no peito e falam: “Não estou recebendo, mas serei ídolo para sempre da torcida do Cruzeiro”.

Bate no peito, pô!

Aquele time que ganhou do Atlético-MG por 6 a 1 em 2011 fez uma péssima campanha no Brasileiro. Mesmo assim, todo mundo é herói do Cruzeiro. Até o goleiro Rafael, que foi para o rival…

“Costumo dizer que eu nasci cruzeirense”

Se vocês forem perguntar se eu vou deixar de seguir o Cruzeiro na Série B, podem desistir. É claro que não vou abandonar o Cruzeiro, não precisa nem perguntar. Agora é a hora do torcedor incondicional. A hora para a torcida sair dessa ainda mais fanática.

Tudo bem que a torcida do Cruzeiro é muito mal acostumada. Acostumada a ver grandes times, a conquistar grandes títulos… Mas chegou a hora do torcedor de verdade. Já fiz o meu sócio-torcedor Diamante e estamos aí. Eu estou doido para voltar ao estádio para acompanhar o Cruzeiro — quando for possível. claro.

Porque eu costumo dizer que eu nasci cruzeirense.

Nasci em 1966. Fui campeão brasileiro logo no meu primeiro ano. Comecei a ir ao estádio com quatro ou cinco anos. Eram os últimos jogos do Tostão no Cruzeiro. E lembro muito bem da minha estreia no Mineirão. Virei para o meu pai e disse: “Eu preciso tirar o casaco para o Tostão ver que eu estou com a camisa do Cruzeiro”.

Na cabeça do menino, imaginava que o jogador pudesse ver todo mundo que estava na arquibancada.

“Torcedor é ter desconforto estomacal em dia de jogo…”

Em 1991, foi criado o Skank. No início, sempre foi muito difícil acompanhar futebol. Às vezes, você estava em um lugar remoto do Brasil e a televisão passava Corinthians ou Flamengo. A ala cruzeirense da banda, junto com a ala atleticana, tinha o costume de ligar para a Rádio Itatiaia. A gente falava: “Olha, aqui é do Skank, queremos saber o resultado da rodada”.

A geração nova não sabe o que é isso, mas não tinha alternativa. Agora, com internet, é tudo diferente. Pode ver ao vivo pelo computador. Eu mesmo assisti à primeira final da Libertadores de 2009 contra o Estudiantes. Estava em Londres e vi o jogo inteiro.

Sabe o que é curioso? Por várias vezes eu já pensei em desmarcar show por causa de jogo. É incrível. A gente chama de Lei de Murphy. É Cruzeiro x Atlético? Tem show na hora do jogo. No domingo tem show às 11 horas da manhã? Eles vão arrumar um Cruzeiro x Atlético no mesmo horário. Eu fico igual louco…

“É Lei de Murphy. É Cruzeiro x Atlético? Tem show na hora do jogo”

Eu me lembro de um Cruzeiro e Botafogo. Os dois estavam brigando pelo título, foi uma espécie de decisão adiantada. Nesse dia, teve show. Os cruzeirenses da plateia ficavam me mostrando o resultado. De repente, um cara levantou o dedo indicador. Eu pensei: “1 a 0 para o Cruzeiro!”. Aí ele levantou os dois indicadores. Pensei: “Droga, 1 a 1”. Mas estava 2 a 0! Eu não aguentei: “Gente, não passe o resultado do jogo para mim. Quero me concentrar no show!”. Todo mundo da produção já sabe: não fala o resultado que eu gosto de olhar depois.

Tem um escritor inglês que gosto muito, o Nick Hornby. Ele escreveu “Febre de Bola”, um livro sobre a relação dele com o Arsenal, o clube que ele torce. Nele, fala que ser torcedor é isso: ter desconforto estomacal em dia de jogo, como se fosse uma doença, uma obsessão. Só quem é torcedor de verdade sabe o que estou falando.

E isso não muda, seja na Série A ou na Série B.

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