Da Arquibancada - Gustavo Nolasco
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Carla, uma guerreira do centenário – Da Arquibancada

A incrível história da garotinha que reagiu para a vida ao som da torcida do Cruzeiro
O som da Nação Azul, o azul e branco, as cinco estrelas haviam estimulado o cérebro desativado da filhinha de Cleuza e Neném

Por Gustavo Nolasco

Cleuza e Neném moravam na comunidade da Ventosa, mas torciam para o Atlético de Lourdes, time elitista de Belo Horizonte. Era meados de 1991. O Cruzeiro havia acabado de conquistar sua primeira Supercopa da Libertadores. Novamente, levando Minas Gerais a ser maioral na América Latina. Mas na TV, a emissora tentava trazer um pouco de equilíbrio, onde já não existia, e para isso, reprisava lances do empate em 2 a 2 entre os dois clubes, acontecido no início daquele ano, pelo Campeonato Brasileiro.
Enquanto se arrumava para cozinhar, Cleuza colocou a cadeirinha especial da pequena Carla, de apenas oito meses, em frente a televisão. A filha tinha nascido com o cérebro desativado. Não tinha qualquer reação física. Não mexia o corpo, emitia sons ou mudava a expressão do rosto. Os médicos já haviam preparado os pais para o pior: nada poderia ser feito se a própria Carla não apresentasse algum estímulo. Ela poderia falecer a qualquer instante.
Na TV, a câmera mostrava a Turma do Sapatênis e seus puffs pretos e brancos. Nesse momento, na casa, o outro único barulho vinha da panela do feijão chiando no fogo. Corte de cena e a transmissão exibe a torcida do Cruzeiro. Eufórica, cantando nas arquibancadas do Mineirão. Esperançosa por um ano-bom.
Foi quando algo fez Cleuza largar a louça.
O corpo arrepiou, não pelo futebol, mas por uma algazarra vinda da sala. Seus olhos marejaram e as pernas bambearam ao presenciar o inacreditável.
A pequenina, e até então imóvel, Carla soltava gritos; apontava os dedos para a torcida cruzeirense na tela da televisão; firmava os pezinhos na cadeirinha para vibrar no mesmo ritmo e olhava para a mãe com uma expressão de felicidade. O som da Nação Azul, o azul e branco, as cinco estrelas haviam estimulado o cérebro desativado da filhinha de Cleuza e Neném.
Poucos meses depois, Carla já andava e falava, sem qualquer sequela. Corria atrás da bola e ficava alucinada todas as vezes em que o Cruzeiro ia jogar.
O pai, Neném, até tentou levá-la para o preto e branco, mas entendeu o destino: sua filha se tornaria uma das mais apaixonadas e barulhentas cruzeirenses das quebradas da Ventosa. E ele, atleticano, enquanto viveu, foi gigante ao respeitar os estímulos provocados pelo azul e branco.
Domingo passado, o Cruzeiro voltou a campo. Carla e nenhum de nós pudemos estar nas arquibancadas, cantando e estimulando o nosso escrete. Será assim durante toda a temporada, seja pelas punições ou pela pandemia. Caberá ao clube ter criatividade para tentar transformar esse esporte sem graça (jogadores correndo atrás da bola sem o grito da torcida) em algo ao menos parecido com o futebol. Contra a URT, além dos três gols, o ponto alto foi a inovação em colocar o DJ Filipe Ikis para reproduzir as vozes e cânticos da China Azul durante a partida no Gigante da Pampulha. Deu alento perceber que, mesmo no novo e chato mundo do “esporte” de likes, lives e redes sociais, o som da arquibancada ainda é a verdadeira alma do futebol-raiz.
Hoje vamos para uma missão quase impossível contra a Caldense. Faltou-nos os pontos perdidos no turbilhão do início do ano. Mas, mesmo se a classificação não vier, esperamos ver a consolidação do estilo de jogo de busca incansável pela vitória, como está no DNA cruzeirense e foi demonstrado na rodada passada.
Manter essa postura será estímulo para a Carla, para o Ikis e para os outros 8.999.998 cruzeirenses aguentarem a espera, fora do estádio, pelo grande dia, onde, finalmente, poderemos devolver ao clube de todas as gentes o som que vem do interior, dos rincões e das quebradas dessa Minas Gerais azul e branca.
Pois, como diz o novo hino popular azul-celeste composto pelo rapper Das Quebradas:
Tô com saudade de ver você jogar
Onde você for, eu vou te acompanhar”
Viva à cruzeirense Carla!
Viva ao som da China Azul!
Reproduzido do Portal UAI
Imagem: Arquivo Pessoal
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Raposão PHD Páginas Heroicas Digitais
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5 Replies to “Carla, uma guerreira do centenário – Da Arquibancada

  1. Isso é possível. Já ouvi de crianças que não falavam e o fizeram a partir de um estímulo. Belo texto, Gustavo. Coisas que o futebol nos propicia. Que hoje a menina e todos nós tenhamos bons motivos para comemorar.

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  2. História sensacional, esta semana no twitter vi um vídeo do lançamento da nova camisa do Trabzonspor da Turquia, no vídeo uma criança com paralisia cerebral fica deitada na cama, e os olhos fixados em uma camisa do clube, o pai ao ver a cena, desenha e pinta a nova camisa num lençol e coloca em teto de vidro, a cena final é maravilhosa, a criança passa a se admirar no teto com jogadora do clube toda uniformizada, que puder pesquise, muito bela a campanha de marketing.

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  3. De arrepiar! Parabéns aos protogonistas e ao articulista. No mais, não se classificar ontem foi o melhor pro clube. Não vou dizer que torci contra porque estaria mentindo. Não consigo torcer contra, meu racional não chega a esse ponto. Mas agora podemos concentrar no que importa.

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