Torcedor seis estrelas

Por SÍNDICO | Em 6 de setembro de 2013

Leo Anchieta

Meu pai é botafoguense, meu vô era botafoguense. Mas a família da minha mãe é toda cruzeirense: meu avô, meu tio…

A verdade é que até a década de 60, o interior mineiro todo torcia para os times cariocas. Depois é que começaram a descobrir o Cruzeiro e o AtléticoMG. Pessoas da geração do meu pai vinham para a capital estudar ou trabalhar carregando o time carioca e adotavam um mineiro. Eu notei isso conversando com meu sogro e com pessoas mais velhas, lá de Campo Belo e Nepomuceno. Alguns continuaram fiéis aos cariocas, outros debandaram de vez para os mineiros, principalmente para aquele timaço de Piazza Dirceu e Tostão.

Meu pai foi um que sempre conseguiu levar isso numa boa. Como gosta de futebol, mesmo botafoguense, foi ao Maracanã assistir Santos x Milan, em 1963. E continuou assim aqui em BH, frequentando o Mineirão para assistir ao grande time do Cruzeiro da década de 70.

Eu, até 9 anos, era cruzeirense. Meu pai não é fanático e nunca fez questão de me influenciar. Não me lembro de ganhar camisas quando pequeno. Talvez por meu avô materno gostar de ir ao Mineirão e de conversar sobre futebol, eu me tornei cruzeirense sem entender muita coisa. O primeiro jogo que eu fui ao Mineirão foi em 1988, eu tinha sete anos.

Mas em 1989 o Botafogo ganhou aquele título depois de 21 anos de jejum. Meu pai tinha comprado um video cassete de quatro cabeças e adorava gravar programas, jogos, filmes… Como jogo foi numa quarta-feira à noite e eu tinha que dormir, ele gravou para que eu assistisse no outro dia. Logo que cheguei da escola eu peguei a fita, ansioso. Meu pai não quis me contar o resultado. Eu fiquei maravilhado com aquela festa no Maracanã. Narração emocionante do Paulo Stein, comentários de Márcio Guedes e João Saldanha. Vocês não têm noção do que foi ganhar aquele campeonato depois de tanto sofrimento.

Eles mostravam torcedores de todas as idades, em prantos na arquibancada. No gramado, os jogadores também não se aguentavam em lágrimas. Paulinho Criciúma, Mauro Galvão, além do Valdir Espinoza e do Emil Pinheiro. Eu nunca tinha visto nada igual. Assisti àquele VHS um milhão de vezes. Decorei a narração.

Com nove anos eu já entendia do riscado, colecionava figurinhas. E assim me tornei botafoguense. Fanático. De chorar nas derrotas e principalmente nas vitórias. Só que eu nunca deixei de ir ao Mineirão. Tenho certeza de que não fui menos do que nenhum de vcs naquele estádio. Eu sou fanático por futebol. E como eu não podia ir ao Maracanã, ia ao Mineirão com meu vô, meu tio, meus irmãos, meus amigos. Só não torcia pelo Cruzeiro quando jogava contra o Botafogo.

Nos jogos do Botafogo eu ia lá no chiqueirinho, vestido de preto e branco. E nesse meio tempo eu descobri os atleticanos. A raça mais mala do planeta. Eles eram maioria em todos os meus círculos de amizade, na escola, no futebol, na natação, no inglês. E tomei ódio por esses caras. Aí torcia mais ainda para o Cruzeiro arrebentá-los.

Na década de 90 eu me deliciava com o a Supercopa, as Copas do Brasil. Ao mesmo tempo ficava ainda mais fanático pelo Botafogo, de Túlio e cia. Tudo sem problema algum, bem dividido. Só que por morar aqui, viver a rivalidade daqui, assistir aos programas daqui etc. eu comecei a viver mais o Cruzeiro, né? Normal. E aí a coisa foi mudando de figura. Cada vez acompanhando o Cruzeiro mais de perto e deixando o Botafogo lá no Rio, de rabo de olho.

E ainda fui trabalhar no Cruzeiro. Aí virou de vez. Continuo torcendo para os dois, mas prefiro o Cruzeiro hoje. Conheço meia dúzia de flamenguistas, dois vascaínos e nenhum tricolor. Eu vivo é a rivalidade BH mesmo, não tem como alimentar a paixão por time de fora. Nunca tive raiz nenhuma no Rio. E como sempre fui assim, não vejo nenhuma aberração nisso. Sempre levei numa boa. O problema é que como a maioria é de um jeito, não aceitam que as pessoas sejam diferentes.

É o famoso preconceito. “Nêgo não pode torcer pra dois times” Por que não? Quem inventou isso? Então eu sou o primeiro? Legal!

Leonardo Anchieta, 35, cruzeirense e botafoguense, profissional de marketing, nasceu em Campo Belo, mora em Belo Horizonte.

58 comentários para “Torcedor seis estrelas”

  1. teixeira disse:

    Seria bom o Marcelo Oliveira assistir os jogos de cruzeiro e flamengo da época de Adilson Batista e de Cuca, além da época de Enio Andrade, para perceber alguns caminhos para vencer o flamengo, que além de rápido, tem bom toque e bom tempo de bola . A bem da verdade, o flamengo não costuma se dar bem com o cruzeiro. As estatísticas mstram isso !

  2. Romeu Madureira disse:

    Parabéns Leo. Você é um raridade no Brasil. Torcer para o Botafogo é pertencer ao um grupo especial. Deve ser o clube “grande” de menor torcida no Brasil. A propósito o Bota ganhou o título brasileiro mais roubado da história. Márcio Resende.

  3. KillerFox disse:

    Boa Leo! Quanto às frangas, em minha opinião, a frase que melhor lhes expressa é: “Ninguém se torna medíocre em sua plenitude até começar a colocar a culpa de sua mediocridade nos outros”.

  4. Meu amigo Zé Gonçalves, de Varginha, tb é Botafogo e Cruzeiro. Seus filhos são cruzeirenses.

  5. Caieira, Gerson dos Santos, Geninho, Juvenal, Braguinha e Pampolini, craques do Cruzeiro que fizeram história no Botafogo. Bengala, ex-jogador do Cruzeiro, fez história no Botafogo.

  6. Polaco disse:

    Sou Cruzeiro e PAFC..o dragão do sul de Minas..que está adormecido..mas não está morto..RÁ!

    • Celeste disse:

      Eu também sou do Sul de Minas (Itajubá) mas moro no interior paulista há muito tempo. Nossa região (Sul de Minas) cresceu e é passada a hora dos gigantes adormecidos acordarem. Um que fizesse isso já estaria de bom tamanho, caso contrário o a torcida da região vai continuar com clubes cariocas e paulistas. Imagine o Pouso Alegre jogando contra o Cruzeiro aí na sua cidade e a garotada entrando com o Cruzeiro em campo.

  7. Palmeira. disse:

    Respeito, mas não imagino o que é torcer para dois clubes. Aqui em Goiás eu até entendo porque não tem time grande, mas em Minas seguramente não é comum.

  8. Marco Soalheiro disse:

    Também tenho um segundo time alvinegro. O Democrata Pantera, de Valadares, time com torcida mais fiel do interior de Minas. Mas dele só uso camisa branca. Não dou margem para o azar. kkkk

  9. Hugo Serelo é Rio Branco e Cruzeiro.

  10. Eduardo Arreguy é DemocrataGV e Cruzeiro.

  11. Silvercan é Vasco de Esmeraldas e Cruzeiro.

  12. Roberto Dinamite e Edmundo eram Botafogo, viraram Vasco.

  13. Sorin é River e Cruzeiro.

  14. Hércules disse:

    Bacana a história do Leo. Meu pai era cruzeirense fanático, mas também gostava do América do Rio, e citava escalações da boa época dos cariocas. Embora não consiga me dividir entre dois times, tenho preferência por alguns times nas disputas estaduais: Atlético Pr., Remo, Inter, Fortaleza e Vitória. Torço contra Vaxxco, Grêmio e Timinho, à exceção de quando jogam contra as frangas.

  15. Mauro Franca disse:

    Sou Cruzeiro e DemocrataSL.

  16. Mauro Franca disse:

    O Leo não é o único. Na época de faculdade conheci alguns botafoguenses-cruzeirenses, tinha uns três ou quatro que eram de Pouso Alegre.

  17. Meu primeiro time e o Cruzeiro o segundo Cruzeiro não tenho dois time. “A verdade é que até a década de 60, o interior mineiro todo torcia para os times cariocas”. Verdade meu Pai ERA Santista e tenho tios que também já torceram para Santos e Botafogo.

  18. matheus t penido disse:

    Meu pai é Cruzeiro e Fluminense. Fui com ele naquele fatídico jogo de 2009 (virada do Flu em pleno Mineirão) e ele torceu pelo Cruzeiro mas não ficou tão triste com os gols do Fred.

  19. Jairzinho disse:

    Tenho um amigo que também é Cruzeiro e Botafogo. Não condeno. Sou só Cruzeiro, aqui, no Rio, no interior, no exterior, em marte …….

  20. Hércules disse:

    Morei em Sabará, me impressionava o número de botafoguenses lá.

  21. Celeste disse:

    Eu sou Cruzeirense, meu esposo é Santos e uma filha é Flamengo. A outra filha era São Paulo, mas depois do último mundial deles, parou de torcer. Assim, quando os resultados dos times deles não atrapalham os do meu, eu não me importo se ganham, só isso. O interessante é que eu dificilmente vejo jogos com eles, mas quando é Cruzeiro eles vêem comigo e torcem, por mim, é o que dizem. Parabéns, Léo, pela coluna.

  22. Celeste disse:

    É óbvio que torço par o São Bento de Sorocaba (cidade onde moro) e Yuracan de Itajubá.

  23. Celeste disse:

    Jorjito é River e Cruzeiro. O Síndico é Cruzeiro e WPFC.

  24. Renato disse:

    Minha família por parte de pai é de JF. Meu pai era flamenguista. Minha mãe gostava fo Vasco. Quando se mudaram de Araxá pra Bh, na década de 80 ela torcia pras frangas pra ispizinhá meu pai. Cheguei a Bh com 4 anos e naturalmente me tornei Cruzeirense. Aos 7 anos fiz uma cirurgia no ouvido e perguntei a eles momentos antes de entrar na sala de cirurgia que se eu não morresse se eles poderiam torcer pro Cruzeiro.

  25. Renato disse:

    Kkkk, era uma cirurgia simples, mas era hora de colocar ordem naquela casa. Depois disso a família inteira tornou-se cruzeirense fanatica. Todos os primos, tias e avó passaram a frequentar a tocá 3 todo domingo. Joguei futsal no clube do ipê e após os treinos sempre íamos à tocá assistir treinos. Meu pai tinha uma Brasília que não sei como cabiam 6, 7 pessoas em dias de jogos. Na final de 2003, já de Monza fomos tantos dentro do carro que fui no porta-malas.

  26. Renato disse:

    Hoje tenho primos de 3 e 4 anos em Piumá e Araguari que sao apaixonados pelo Cruzeiro, pois sempre que vão à Bh minha mãe os enChe de camisas, calções e brinquedos do Cruzeiro. Fora assistir aos jogos lá em casa que pra eles é uma festa.

  27. Hércules disse:

    Renato, dependendo do ano que vcs chegaram, na triste década de 80, você realmente foi predestinado a ser cruzeirense.

  28. Celeste e Blaugrana disse:

    Leo, também sei o que é ser apaixonado por futebol e dividir o coração entre dois times. Nasci em uma família cruzeirense fanática. Meu bisavô, Quiquino, foi beque do Palestra mineiro e desde cedo meu pai me levava ao Mineirao. Não entendia muito bem como tudo funcionava, mas já gostava do cruzeiro. A afirmação, no entanto, veio naquela final mágica da Copa do Brasil de 1996 em que o Dida fechou o gol e acabou com o timaco do Palmeiras. Daí pra frente, só alegria.

  29. Celeste e Blaugrana disse:

    No entanto, ao ficar mais velho comecei a me interessar mais por futebol e, com isso, pelo Barcelona. Por uma dessas coincidências da vida, em 2008 ganhei uma bolsa de estudos para cursar o mestrado em Barcelona, e para lá fui. Chegando à cidade, encontrei um time em reformulação, com bastante desconfiança da torcida em relação a um desconhecido Guardiola. Longe das Minas Gerais, comecei a acompanhar a evolução daquele escrete que acabou conquistando seis copas e se tornando, na minha opinião, a maior equipe da história. Com isso, não teve jeito. O sangue blaugrana passou a se misturar com o azul e, até hoje, acompanho o Barca.

  30. Celeste e Blaugrana disse:

    Inclusive, durante a minha estadia na cidade, ocorreu um episódio engraçado. Consegui ingressos para ver a semifinal contra o Chelsea no Camp Nou e fui vestindo a camisa do Barca, mas empunhando o manto celeste. Alguns idiotas acharam que a camisa era do time inglês e vieram tirar satisfações, imediatamente refutadas no meu péssimo catalão (que ao menos servia para entoar os cânticos de amor ao Barca). No final, a partida terminou empatada, muito devido à enorme conivência do Chelsea com os sarrafos do Drogba. Após, o Barca conseguiu um empate em Londres com um gol aço do Iniesta no último minuto, chegando à final. E, após ganhar a final, fui comemorar como um legítimo catalão subindo nas Canaletes e acordando no dia seguinte completamente sem voz.

  31. Celeste e Blaugrana disse:

    O meu maior lamento naquele ano foi não ter visto as equipes se enfrentarem no mundial por causa da lambança do Cruzeiro contra o Veron. Enfim, uma pena mas vida que segue, empurrando sempre cruzeiro e barca

  32. Naldo disse:

    Sempre fui Cruzeiro. Quando vim morar no DF fiquei um pouco desambientado por aqui era só Rio de Janeiro. Acompanhava o Carioca por falta de opção, nem rádio pegava direito. Mas me mantive cruzeirense. Acompanhava o Cruzeiro como podia. Inconfidência quando conseguia o sinal, como tempo passei a comprar jornais de Minas e hoje tá bem tranquilo, não faltam opções.

  33. Naldo disse:

    Seria o torcedor BI-Time. Conheço alguns.

  34. Celeste disse:

    O Evandro é Cruzeiro, Cruzeiro e Cruzeiro.

  35. Meu pai tb é Cruzeiro e Botafogo. Na verdade ele é Botafogo, Cruzeiro e Bela Vista. Nessa ordem… O mesmo caso de influencia carioca na família. Mas tem momentos que eu acho que o Cruzeiro passa o Botafogo na preferência dele. Rsrs… Eu não consigo… É o Cruzeiro e ponto final!

  36. Anderson Olivieri, no Facebook: “Já que não posso comentar lá, aqui vai minha curtida, para expressar que gostei do texto do Leo.”

  37. Beth Makennel disse:

    E se jogar Cruzeiro x Botafogo e disputando título como agora, pra quem vai torcer Léo?