Posts com a Tag ‘Fialho Pacheco’

Emerson, Adílson, Wanderley

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Paulo Autuori perdeu de 4×0 e caiu fora antes da segunda final de 2007.

Emerson Ávila embarcou na canoa furada e lavou a honra celeste batendo o Atlético-MG por 2×0.

Eu estava lá e vi a torcida emplumada passar 85 minutos em profundo silêncio antes de poder comemorar aquele título mineiro.

Respeito Emerson Ávila. Em uma semana, ele costruiu um time épico.

Adílson Batista levou pancada desde o anúncio de sua contratação até o momento em que deixou o clube.

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J. A. Ferrari, o Bafo da Raposa

terça-feira, 18 de maio de 2010

Belo Horizonte, 02out33

O disparate entre o tamanho da torcida cruzeirense nas arquibancadas e nos jornais, rádios e televisões de Belo Horizonte é intrigante. Mesmo sendo maior no Mineirão, ela não ocupa espaço proporcional nas redações.

Em semanas de clássicos, então, os cruzeirenses se revoltam com a percepção que a imprensa da cidade apóia os, sem meias palavras.

Uma explicação possível para o fenômeno está no fato de que, ao contrário dos craques que se aposentam cedo,  jornalistas jamais saem de cena.

O tempo passa, ídolos são substituídos, mas o tom preto-e-branco das páginas esportivas permanece imutável como se futebol ainda fosse jogado com bola de capotão dos tempos em que o Atlético-MG tinha a maior torcida da cidade.

É história antiga. Vem dos tempos em que o exercício do jornalismo era privilégio de quem dominava as letras ou a arte de vender anúncios.

Jornalistas eram advogados, escritores, professores ou, na outra ponta, corretores de anúncios. Gente da elite da cidade, do meio de onde surgiram América-MG e Atlético-MG.

O Palestra Itália, criado por imigrantes italianos, era um clube de trabalhadores financiado por comerciantes.

Era um clube de marceneiros, pintores de parede, padeiros, caminhoneiros, pedreiros, pequenos agricultores. Os que subiam na vida abriam algum empreendimento comercial. Somente duas ou três gerações depois de sua chegada a Belo Horizonte, as famílias italianas começaram a formar seus primeiros doutores.

A distância entre o Palestra e os meios de comunicação é tão antiga quanto os clubes da cidade. Vem da década de 20  do século passado, e muda com lentidão.

A relação da torcida cruzeirense com a imprensa esportiva mineira sempre foi antagônica. A maior parte dos jornalistas é considerada rival. No sentido inverso, muitos cruzeirenses da crônica esportiva transformaram-se em heróis.

Plínio Barreto, o mais antigo jornalista esportivo mineiro e o maior arquivo vivo da história do futebol em Belo Horizonte é um exemplo de herói celeste. Ele transitou da crônica esportiva para a direção do clube, durante a gestão Felício Brandi, e quando fez o caminho de volta não perdeu prestígio entre os cruzeirenses.

Fialho Pacheco foi outro nome histórico. Foi o mais importante repórter policial de Minas. Dele, se dizia que desvendava mais crimes que a própria polícia. Alto, corpulento, sempre com um cigarro no canto a boca, além das reportagens policiais, Fialho estava sempre a serviço do Cruzeiro. Foi ele quem criou o slogan “Eta, Cruzeiro duro!”, que a torcida repetiu à exaustão nas décadas de 40 e 50 e e estampou adesivos que os cruzeirenses pregavam nas portas e vitrines das lojas de comerciantes atleticanos e americanos.

Afonso de Souza, irmão do lateral-direito Souza, editor de esportes do Diário da Tarde foi outro militante azul da crônica esportiva de Beagá. Quando o Mineirão foi inaugurado e o futebol mineiro atingiu seu ponto de ebulição com a febre dos programas esportivos, ele teve a idéia de criar colunas no DT. Cada uma dedicada a um grande da cidade. Os colunistas escolhidos foram jornalistas cheios de verve, ironia e deboche, gente com a cara e o espírito do torcedor de arquibancada.

Para a coluna Toca do Coelho, o irônico Paulo Papini, que estava sempre algumas doses –consumidas no bar do Palmeiras, no São Lucas– acima dos rivais.

Pra coluna Canto do Galo, o sarcástico Francisco Antunes (Xico Antunes ou XA), cuja personalidade combinava o ressentimento e amargura, marca alvinegra nos primeiros tempos do Mineirão. Ele calibrava as palavras e afiava a língua nas mesas do Ali Ba Bar, na Barroca, perto do Colégio Marconi.

O defensor do Cruzeiro seria o abstêmio J. A. Ferrari, que nunca levava desaforo pra casa e respondia às provocações com raciocínio rápido e tiradas inteligentes.

Antes da coluna Bafo da Raposa, João Alberto Ferrari de Lima já havia trabalhado em várias seções dos Diários Associados (Estado de Minas e Diário da Tarde e TV Itacolomi, menos nas páginas esportivas.

Filho do jornalista cruzeirense Ethelberto Franzen de Lima, e de Lúcia Ferrari de Lima, de família italiana vinda da região da Basilicata, J. A. era um jornalista de combate. Franzino, defendia-se com o raciocínio rápido que o ajudava a criar piadas mordazes e instantâneas.

Sua aceitação pela torcida celeste foi imediata e o impediu de cumprir promessa que fizera a si memso de escrever apenas uma coluna e só mesmo pra atender ao amigo Afonso de Souza.

O sucesso foi tão grande e tão imediato, que além do jornal, ele acabou estrelando o Bola na Área, debate esportivo de maior índice de audiência na televisão brasileira com espantosos 97% de Ibope.

Ele conta como aconteceu:

  • “Eu era redator de política do Estado de Minas, atividade entediante durante a ditadura, por causa da censura. Percebendo minha irritação com a atividade monótona, Ciro Siqueira me transferiu pra Superintendência de Relações Públicas do jornal. Foi lá que o Afonso de Souza me buscou pra escrever a coluna do Cruzeiro. O sucesso foi tão grandem que a Brahma decidiu patrocinar um programa de televisão com os colunistas da Diário da Tarde.”

O coluna causou polêmica desde sua primeira edição. Na segunda-feira após o primeiro Cruzeiro x Atlético no Mineirão, J. A . fez pesadas críticas aos jogadores e dirigentes atleticanos que, inconformados com a marcação de um pênalti, brigaram com o juiz e a polícia.

Irritado, o treinador Mário Celso de Abre foi ao jornal reclamar. Mas, em vez dos tradicionais salamaleques dispensados aos dirigentes atleticanos pelo pessoal da casa, ele  encontrou um jornalista duro.

Ferrari não apenas reafirmou sua convicção de que havia sido pênalti, como ainda quis saber porque os atleticanos espumavam durante o jogo e a briga. Marão desconversou e voltou pra casa sem a retificação do repórter.

Cruzeiro 1×0 Atlético-MG, domingo, 24out65, Mineirão, Belo Horizonte, 11ª (última) rodada do 1º turno do Campeonato Mineiro de 1965 – Juan de la Passión Artés (FMF) – Bandeiras: Wilton Marinho e José Gomes  (FMF) – Expulsões: Bugleaux, Vander, Roberto Mauro, Mário Celso de Abreu foram os primeiros expulsos. Quando a pancadaria se generalizou, os demais jogadores, titulares e reservas, também foram exclupidos da partida – Gol: Tostão, 35 do 1º tempo – Cruzeiro: Tonho; Pedro Paulo, William Cavalo, Vavá e Neco; Ílton Chaves, Dirceu Lopes e Tostão; Wilson Almeida, Marco Antônio e Hilton Oliveira. Tec: Airton Moreira – Atlético-MG: Luiz Perez; João Batista, Vander, Bueno e Décio Teixeira; Bugleaux, Viladônega e Toninho; Buião, Roberto Mauro e Noêmio. Tec: Mário Celso de Abreu.- Notas1. O pênalti que deu origem à briga foi cometido por Décio Teixeira em Wilson Almeida aos 34 do 2º tempo. 2. Mário Celso de Abreu, o Marão, havia sido campeão brasileiro dirigindo a Seleção Mineira em 1963. 3. William Cavalo e Ílton Chaves, então jogadores do Atlético, Marco Antônio, do América, e  Neco, do Villa Nova, também tinham sido campeões brasileiros de 1963. 4. Na mesma tarde, a TV Itacolomi exibiu, diretamente do Rio de Janeiro, o clásssico FlaxFlu, o de maior prestígio no futebol brasileiro. 5. Os jogadores atleticanos que agrediram o juiz e travaram uma batalha campal com soldados da Polícia Militar foram detidos e conduzidos à delegacia para prestar depoimento. 6. Juan de la Passión Artés era espanhol. 7. Este Cruzeiro 1×0 Atlético-MG foi o 11º dos 30 que o Cruzeiro disputou pra se tornar campeão brasileiro de 1966.

Daí em diante, sucederam-se as confusões. Brigas que vinham de antes da inaugruação. De uma rivalidade começada há 50 anos no futebol da Capital mineira.

Quando, numa manhã, antes da inauguração do Gigante da Pampulha, a administração do Mineirão reuniu os presidentes dos Cruzeiro, Atlétic0-MG e América pra escolha dos locais a serem ocupados pelas torcidas, esquecidos de que futebol se joga à tarde, os atleticanos escolheram a parte sombreada das arquibancadas.

Quando perceberam a mancada dos cartolas, os torcedores alvinegros ficaram furiosos. X. A. foi quem comandou a reação chamando de refrigerada e de barropretada a torcida cruzeirense.

J. A. respondeu dizendo que, por falta de uma praça de esportes própria, aquele pedaço escaldante da arquibancada passaria a ser sede campestre do Atlético-MG. Lugar apropriado para os emplumados se bronzearem sem pagar taxa de condomínio. Pegou.

Além de esquentar os fundilhos na fornalha e receber o sol da tarde na cara, o que tornava difícil acompnanhar os jogos, na segunda-feira os alvinegros ainda tinham de ouvir a inevitável pergunta sobre bronzeado adquirido no fim de semana.

Outra brincadeira que entrou para o folclore aconteceu no Bola na Área. No afã de conquistar aliados para o seu América-MG, o jovem cartola americano, Paulo Afonso, propôs ao Coronel Walmir Pereira, presidente do Atlético-MG, botarem as duas torcidas desfilando juntas com suas bandeiras pela Avenida Afonso Pena.

O presidente ouviu calado a explicação de que a aliança seria fatal para o Cruzeiro. O sucesso seria suficiente para os vira-casacas, que haviam trocado o América-MG pelo Cruzeiro, voltarem pro antigo clube.

J. A. foi curto e grosso: “Paulinho, pode buscar sua turma, mas não precisa levar mais do que uma ou duas Kombis…”

Walmir Pereira deu gargalhada estrepitosa. Paulo Afonso ficou sem resposta. E a história de que bastam duas Kombis pra carregar a torcida do Coelho entrou para o anedotário do futebol mineiro e brasileiro.

Outra vítima de J. A. foi o compositor Carlos Imperial. Num programa da televisão carioca, o multimídia se confessou cruzeirense em Minas.

Uma semana depois, ele veio a Belo Horizonte contratado para promover a Rodada dos Milhões, um dos inúmeros carnês de prêmios da história do Clube de Lourdes. Desfilou no Mineirão, deu entrevistas falando de se amor pelas cores preta e branca, que eram também as do seu Botafogo. E deitou falação sobre sua paixão pelo Atlético-MG.

À noite, no Bola na Área, ele repetiu a conversa. Só não contava com o troco de J. A.: ”Foi bom mesmo você ter mudado de clube, pois sua imagem não faria bem ao Cruzeiro.”

Pego no contrapé, Imperial jogou por terra mais uma ilusão da torcida atleticana. Disse que só estava ali para defender seu cachê.

Mas a vítima preferida da J. A. era seu o colega X. A., quase sempre apanhando pela palavra. Como no dia em que, convidado pra chefiar a delegação atleticana numa viagem a Formiga, chamou a cidade de “Sertão da Farinha Podre”.

Dito por um formiguense, em roda de amigos, fica engraçado. Por estranhos, vira ofensa. J. A. exigiu respeito pela “Princesa do Oeste” e levantou a cidade contra o Atlético-MG. Diante da reação, X. A. pipocou e desistiu da missão.

Quando a extinta TV Itacolomi resolveu gravar o Bola na Área no interior, os cronistas levavam material promocional de seus clubes (camisas, canetas, bonés, chaveiros e o que mais existisse nos departamentos de relações públicas).

No fim do programa, torcedores faziam fila para receber os brindes do Cruzeiro, enquanto os do Atlético-MG encalhavam. Depois de ver a história se repetir em Itaúna, Lagoa da Prata, Ouro Preto e Curvelo, X. A. desistiu: “Não volto mais ao interior de Minas, essa terra de cruzeirenses”.

O que não falta ao cruzeirense João Alberto são histórias. E história, com H maiúsculo também.

O Presidente da Província de Minas, seu tio-avô Augusto de Lima, foi quem assinou o decreto transferindo a capital de Ouro Preto pra Belo Horizonte. Ato de coragem que desfiou a ira dos ouropretanos.

A mesma coragem que fez J. A. aprender caratê pra se defender dos torcedores que o ameaçavam.

  • “Um chegou a telefonar ameaçando me dar um tiro nas costas. Eu o chamei de covarde. Disse-lhe que só podia agir mesmo pelas costas, pois, cara a cara, ia tremer e deixar cair a arma. O idiota nunca mais amolou mas, por via das dúvidas, tratei de aprender defesa pessoal.”

Medida oportuna, pois Bafo de Raposa não é algo que agrade os sensíveis rivais do Cruzeiro em Belo Horizonte.

N.B.: Este capítulo do Livro Páginas Heróicas Imortais foi  o 5.000º post do blog PHD (Páginas Heróicas Digitais).