Nogueirinha, o ermitão

Por SÍNDICO | Em 10 de janeiro de 2019

                     Três Corações, 09jul20; Belo Horizonte, 09jan19

Quando chegou a notícia de que a Seleção Brasileira de 38, a caminho de Caxambu, passaria por São Lourenço, o diretor do Ginásio Propedêutico teve que liberar os alunos para irem à estação esperar os craques. No meio da turma, estava João Nogueira Júnior, o Nogueirinha do Palestra, Cruzeiro e Seleção Mineira dos Anos 1940. “A gente acompanhava a disputa entre Caxambu (São Cristóvão) e Niginho (Vasco) pela artilharia do campeonato carioca. Eu era fã do Niginho e ele venceu. E foi justamente o rosto do meu ídolo, o primeiro que vi na janela quando o trem parou na estação. Ele estava com uma mancha roxa em volta do olho direito, talvez, por conta de uma bolada. Na hora, só me ocorreu gritar: ‘Eu ainda vou jogar com você!’ Ele foi gentil: ‘Então vá treinando que um dia a gente acaba jogando no mesmo time, meu jovem!’”

Nogueirinha começou no Águas Virtuosas, de Lambari, cidade onde passou a infância. Depois, atuou nos times do Colégio Propedêutico, de São Lourenço, e Ginásio Diocesano, de Campanha. Nos jogos entre colégios da região, ele fez nome. Tanto que os padres Artêmio e Machado o convidaram pra “enxertar” o time de seminaristas de Elói Mendes que faria a preliminar de Palestra x Eloiense, em Out38. O Palestra venceu o jogo principal por 5×0, mas o destaque da tarde foi Nogueirinha. Impressionado com seus dribles e velocidade, o presidente Osvaldo Pinto Coelho quis contratá-lo, naquele dia mesmo.

Nogueirinha, contudo, havia prometido aos pais, João Nogueira, ferroviário, e Orminda Melo Nogueira, colocar a escola acima de tudo. E só quando terminou o curso médio, em Nov39, tomou o trem pra Capital pensando em jogar futebol e estudar contabilidade. “Desci na Central e fui pra Pensão Amaral, na Rua Sapucaí. De lá, telefonei para o presidente Pinto Coelho e ele me convidou pra tomar café em sua casa. De lá, fui diretamente para o barracão dos fundos do campo do Palestra, onde moravam Geraldo II, Canário e Juca. Nulo Savini e sua tia, que também moravam lá, foram como que meus pais na cidade.”

A estréia no time principal aconteceu em 21jan40: “O meia-esquerda Geninho estava machucado e o treinador Bengala me escalou. Apesar dos 5×1, que levamos do Siderúrgica, fiquei impressionado com a habilidade dos atacantes Carlos Alberto, Geraldino, Niginho e Alcides, e decidi que não sairia mais do time. Mas só voltou a jogar em 03Mar, num 5×2 sobre o Sete de Setembro. Três semanas depois, estrearia no clássico da cidade vencendo o Atlético por 3×0.

Até seu último jogo, um 0x0 contra o América em 15mai47, Nogueirinha vestiu 157 vezes a camisa do Palestra e do Cruzeiro, marcou 45 gols e foi 4 vezes campeão mineiro (40, 43, 44, 45). Jogou ainda por seleções universitárias e profissionais de Minas. Estudou contabilidade na Faculdade de Comércio, iniciou o curso de odontologia (que parou por falta de tempo) e arranjou emprego na Companhia Serviços de Engenharia, uma das construtoras da Rio-Bahia.

Nogueirinha conta dois momentos inesquecíveis de sua carreira. O primeiro foi a inauguração do Estádio JK, no Barro Pretos. “A festa começou com uma missa rezada pelo Padre José Augusto, na Igreja de São Sebastião, pela manhã. Eu e o Alcides fomos auxiliares na celebração. À tarde, a torcida lotou o estádio. Estava eufórica e o time incorporou aquele estado de espírito e entrou com disposição pra arrebentar o Botafogo. Azevedo e Heleno de Freitas discutiam o tempo inteiro de tanto que os times queriam vencer”. O outro, foi a decisão de seu último título, o de 1945: “Foi uma daquelas guerras em que se transformavam as partidas em Sabará. Mas estávamos bem protegidos, pois nossa torcida invadiu o estadinho da Praia do Ó”.

  • Siderúrgica 2×3 Cruzeiro, 04nov45dom15h, Praia do Ó, Sabará , renda de Cr$8.000,00, gols de Hemetério, 11, Paulo, 15, Ismael, 34 do 1º tempo; Mingueirinha, 35, Ismael, 40 do 2º – Cruzeiro: Geraldo II, Bibi, Caieirinha; Adelino, Hemetério, Juvenal; Nogueirinha, Sellado, Levi, Ismael Caetano, Braguinha. T: Francisco Trindade. Siderúrgica: Mozart, Bené, Jorge; Bandola, Naninho, Joane; Mingueirinha, Marcelo, Vieira, Paulo Florêncio, Rômulo. T: Mascote.

Foram sete anos de vacas gordas para o religioso Nogueirinha. Quando não estava estudando ou treinando, podia ser encontrado na Igreja de São Sebastião, onde era secretário da Congregação Mariana. Com tantos afazeres, levava uma vida ascética, longe das habituais farras dos boleiros. Afora as visitas aos Fantoni, onde se falava italiano e se comia macarrão, duas de suas paixões, ele vivia recluso, daí o apelido de “Ermitão”, que ganhou do jornalista Britaldo Soares.

Niginho foi o ídolo que virou amigo. Em 1940, a CBD encarregou a Seleção Mineira de representar o Brasil no Sul-americano de 1941. Nogueirinha conta: “O torneio seria na Bolívia e os dirigentes imaginaram que, nós mineiros, por vivermos bem acima do nível do mar, teríamos melhor desempenho na competição”. O treinador Ademar Pimenta passou uma temporada assistindo aos jogos dos times mineiros a fim de selecionar os jogadores. Nogueirinha foi convocado pelo desempenho numa partida contra o Siderúrgica e viajou pr\\a a temporada de treinos em Caxambu.

Em meio aos preparativos, a CBD desistiu de participar do torneio, que se realizou em fevereiro de 1941 no Chile, e desfez a Seleção: “Perdi a chance de realizar dois sonhos: vestir a camisa do Brasil e viajar ao Exterior. Mas ganhei a amizade de Niginho quando lhe contei o episódio da Estação de São Lourenço. Ele viu naquilo um desígnio divino e se tornou ainda mais meu amigo.”

Nogueirinha falava inglês, francês e italiano, E era conselheiro dos colegas. A Geraldo II e sua noiva ministrou o curso de noivos. Ao amigo Adelino, deu lições de como cortejar uma moça. “Eu namorava a Dalila, filha do diretor Nello Nicolai e levei o Adelino pra conhecer uma das minhas cunhadas. Ele não sabia como se declarar. Dei uma forcinha. Compramos rosas e ensaiamos algumas palavras românticas, mas ele ficou nervoso, esqueceu tudo e, encabulado diante da garota, me perguntou: ‘Ô Ermitão, o que é que eu tenho mesmo de falar?’ Aí perdeu a namorada.”

Nogueirinha casou-se com Dalila e teve quatro filhos. Dois deles, Gaúcho e China jogaram no Atlético, aborrecimento suportável apenas por quem tem a sabedoria e a paciência de um ermitão.

9 comentários para “Nogueirinha, o ermitão”

  1. SÍNDICO disse:

    NOGUEIRINHA morreu ontem, em Belo Horizonte.

    • BrunoBarros disse:

      Obrigado por tudo. Vá com Deus. Recentemente ele recebeu uma bela homenagem em campo, no Mineirão, junto com Dirceu Lopes, Alex e Palhinha (não lembro exatamente em qual jogo).

  2. mmc disse:

    Você chegou a entrevistar ele Síndico? Eu lembro que tinha a história dele lá no seu livro como um dos grandes jogadores do Cruzeiro do passado.

    • SÍNDICO disse:

      Entrevistei-o várias vezes. Ficamos amigos, ele veio comer macarrão aqui em casa diversas vezes. E me contou um monte de histórias pitorescas de seu tempos de atleta.

  3. Jotta R disse:

    Belo post Síndico! Nogueirinha continuará vestindo o Azul dos Céus!

  4. Mauro Franca disse:

    Grande exemplo de homem e jogador. Que descanse em paz.