No tempo em que Dondon era beque do América

Por SÍNDICO | Em 6 de abril de 2013

Cyro Siqueira contou esta história no Estado de Minas, de 18dez00:

Onde entra o futebol

Vou amenizar esta página me ocupando de um local de trabalho que passou do centro, digamos, histórico da cidade para outro centro, o de negócios. Lewis Munford, certamente uma das maiores autoridades a respeito de problemas metropolitanos, já observou que as grandes metrópoles ao norte da linha do Equador tendem a crescer organicamente para o oeste, enquanto nos países abaixo do Equador, o caso do Brasil, investem em direção ao leste. É claro que a afirmativa sofre o mal de seu esquematismo. De certa forma, Belo Horizonte confirma, em suas linhas gerais, esta tendência.

Colocado em discussão, o assunto é polêmico e assim continuará a ser graças à saudável vocação para a polêmica, virtude cultivada pela humanidade. O que importa agora é que, na batalha da mudança, enfrentei o desafio de colocar em ordem antigos guardados meus. Do guarda-chuva da memória começaram a cair lembranças de um tempo sempre agitado por suas contradições. Lembrei-me então de um episódio ligado ao futebol mineiro e que me foi contado por Plínio Barreto, colega do EM há décadas. Como excelente especialista no assunto, Plínio relembrou uma pequena história ocorrida em 1935: a história de um jogo amistoso entre os times de futebol do América e do Atlético.

Resumindo: o primeiro tempo terminou com Atlético ganhando de cinco a zero. Terminado o período de descanso, o juiz reabriu o jogo, chamando os times para, como se diz, adentrarem o gramado. O Atlético adentrou, mas o time do América não apareceu. O juiz deu um tempinho. O América continuou sem aparecer. Quando a demora ficou demais, alguém resolveu ir atrás do time, lá no vestiário.

A porta estava fechada, ninguém atendia. O pessoal ficando nervoso, os assistentes do balípodo impacientes, o clima não estava ficando bom: resolveram arrombar a porta do vestiário.

No vestiário não havia ninguém. Os jogadores do América tinham saído pela janela. O time americano não abandonou o gramado, simplesmente fugiu pela janela.

Foi um caso clamoroso. O Atlético rompeu relações com o América, com ele nunca mais jogaria qualquer partida amistosa. De jogo de campeonato, ele não podia fugir, mesmo porque não se pode esquecer que o América detém um título que é só dele, o de Deca. Por dez vezes ele foi campeão do futebol mineiro. Mas, amistoso, nunca mais.

Aproveitando-se desse impasse, o Cruzeiro Esporte Clube, que naquela época não era Cruzeiro Esporte Clube mas sim o Palestra Itália, já então arquiinimigo do Atlético, resolveu encher a bola do América e o convidou para um amistoso. Se o Atlético não fazia, ele, o Palestra, iria fazer.

Barro Preto, primeiro tempo. Palestra, três, América, dois.

Segundo tempo, fim de jogo: Palestra, oito, América dois.

O técnico do Palestra procurou o técnico do América:

– Olha aqui: nós fizemos os cinco gols no segundo tempo para que seus jogadores não fugissem no intervalo do primeiro tempo. Assim, o jogo ia conseguir chegar ao seu final, como aconteceu.

O técnico do América ficou inimigo mor tal do técnico do Palestra.

Boa história, não é mesmo? Mas não foi bem assim.

O Estado de Minas de 30abr35 contou o que aconteceu no domingo, 28abr35, em jogo do Campeonato da Cidade (Mineiro):

Os dois times disputavam o 2º lugar no campeonato. Após o 1º tempo em que o Athletico vencia por 5×0, o América não quis iniciar a fase final. Os juízes Donorte André e José Souza foram escolhidos em comum acordo, mas como o 2º juiz não compareceu, apenas Donorte arbitrou a partida. Alegando que Donorte estava prejudicando o seu quadro, no intervalo da partida, os rubros decidiram que o jogo fosse dirigido por dois árbitros. Donorte não aceitou. A essa altura alguns players do América já se encontravam na cancha e o Sr. Álvaro Clark Ribeiro chama-os, retirando-se com os mesmos do estádio.

A segunda parte da história é verdadeira. Cruzeiro e América disputaram entre si, a Taça Securitas em dois jogos:

  • Palestra 8×2 América, domingo, 28jul13, 15h, Palestra Itália, Av Paraopeba (atual Augusto de Lima, no Barro Preto), Belo Horizonte, primeira  partida da Taça Securitas. Juiz: Satyro Taboada. Gols: Alcides, 7, Marcondes, 15, Orlando Fantoni, 20, Niginho, 28, Camillo, 42, Niginho, 53 e 67, Orlando Fantoni, 80, Niginho, 84, Bengala, 87.  Palestra: Geraldo Cantini, Gegê e Jove; Souza, Ferreira e Mundico; Piorra, Orlando Fantoni, Niginho, Bengala e Alcides Lemos. Tec: Matturi Fabbi / América: Romeu (Caxambu), Pádua e Dondon; Kid, Paim e Elliot; Mingueira, Camillo, Carlos Alberto (Redelvino), Nelson e Marcondes. Tec: Satyro Taboada. Preliminar: de juvenis: Palestra 5×1 João Pinheiro.
  • América 4×4 Palestra, domingo, 11ago35, 15h, campo do América, na Av. Araguaya (atual Francisco Sales, na Floresta), Belo Horizonte, segunda partida da Taça Securitas. Juiz: José Pedro Rizzo. Gols: Mingueira, 2, Ninão, 12, Orlando Fantoni, 14, Alcides Lemos, 17, Marcondes, 31, Nelson, 49, Carlos Alberto, 70, Alcides Lemos, de pênalti 83. Palestra: Geraldo Cantini (Geraldo II), Gegê e Jove; Souza, Ferreira (Chinda) e Mundico; Piorra, Orlando Fantoni (Niginho), Ninão, Bengala e Alcides Lemos. Tec: Matturi Fabbi / América: Armando, Dondon e Lacerda (Pimentão); Paim (Kid), Juca e Larô; Mingueira, Redelvino (Camillo), Carlos Alberto, Nelson e Marcondes. Tec: Satyro Taboada. Preliminar: Hellenico SC 2×2 UECSC.

Notas

  • O Juiz João Pedro Rizzo, o Rizzão, ex-beque do Palestra Itália, brigou com um torcedor do América no final do jogo.
  • Dondon é aquele do samba do Ney Lopes, o famoso beque do carioca Andarahy.
  • Em 1935, o América usava camisas vermelhas, em protesto contra a profissionalização do futebol.

36 comentários para “No tempo em que Dondon era beque do América”

  1. Mário Cesar disse a um torcedor da Cota, no blog do Chico Maia, em 18mar13, às 14:56: Nelson Henrique, antes de mais nada, vamos elucidá-lo: 1916/1925, com DECACAMPEONATO HOMOLOGADO PELA FMF. Houve uma contestação irresponsável de um jornalista cuja a nota que ele se baseou foi do EM do início dos anos 30, pois o América, após vencer o atletico de 4×0, os clubes desistiram de disputar e a federação proclamou o título de campeão. Eles fundaram outra liga, o que no caso refutou tal decisão. Pesquise antes de falar asneiras, quer uma fonte? Jornal Estado de Minas, 25dez35. Lá, em um caderno especial, o jornal se desculpa da nota e proclama o AMÉRICA como de fato DECACAMPEÃO. Em 2012, a FMF homologou o título para que nenhum desavisado diga mais asneiras. Fora isso, desse RECORDE MUNDIAL (o futebol evoluiu, mas DECA em Minas continua sendo somente um):
    Campeão mineiro de 1948 – vencendo o Atlético de 3 na final;
    Campeão Nacional da Copa dos Campeões de 48 – vencendo o Vasco, base da seleção da copa de 50 por 4 a 2.
    Campeão mineiro de 1957;
    Campeão invicto de 71, vencendo o atlético os dois clássicos do mineiro e empatando o do brasileiro, assim, no ano ( aliás, único) que mais vangloriam não botaram banca no próprio terreiro, não bateram o América.
    Campeão mineiro 1993.
    Campeão brasileiro série B 1997
    Campeão da COPA SUL MINAS 2000
    CAmpeão mineiro 2001
    Campeão taça MG 2005
    Campeão brasileiro Série C 2009
    As maiores (não as únicas) GOLEADAS do América sobre o Atlético.
    16dez17 6 a 0 torneio início
    11mai19 5 a o campeonato mineiro
    25fev20 4 a 1 campeonato mineiro
    11jun22 6 a 2 campeonato mineiro
    14jun25 4 a 1 sagramos decacampeões em cima deles neste dia
    25nov28 6 a 3 campeonato mineiro
    08mar50 5 a 0 amistoso
    02fev51 5 a 0 amistoso
    27mar52 4 a 1 amistoso
    15mai52 7 a 2 torneio quadrangular
    17mai64 5 a 2 torneio
    06jun93 4 a 0 campeonato mineiro
    27mai01 4 a 1 campeonato mineiro
    Fica mais uma vez ridicularizando os títulos do América. Se enxergue rapaz. O América ganhou isso sem nunca ter tido massa, dinheiro para contratar, lobby etc. Ou seja, com muito mais dificuldade!!! A última vez que o América perdeu de 5 do Atlético foi em 1987. Logo, num longíquo 26 anos atrás. Não sou acostumado perder clássico de goleada. Levar direto de 5, 6 em clássico frequentemente é para outro time daqui. O Atlético, com toda a torcida que sempre teve, com todo o dinheiro que teve para montar timaços, selegalo, taffarel, r10 e escambau vive em 100 anos com um mísero título nacional. É a maior prova de incompetência da história do futebol mundial. Seja menos arrogante. Vocês precisam ter muita humildade para ganhar algo. Se acham donos do mundo, saem dizendo que são superiores a tudo e todos e aqui em MG são mimados pela imprensa, aí se iludem e acredtiam. Morei no RJ e lá são considerados uma ponte preta da vida. Até o Bahia acham superior. O América não é grande. Mas é tradicional e merece o mínimo de respeito. Sou americano, mas sou lúcido. Se for olhar na prática mesmo quem é grande em MG, só o Cruzeiro, que tem título nacionais e interncionais e regularidade de respeito. Não é humildade que falta no América. É dinheiro para fazer time. Temos tradição e humildade. Vocês tem dinheiro e torcida, mas falta muito mais, faltam outras virtudes…

    • Paulo Souza disse:

      Verdades sobre o time de Vespasiano. O atreticano ficou em maus lençóis. A imprensa provinciana, especialmente a radio atletiaia, dá ao time rosado status que ele não tem. O pior é que mentira repetida vezes vira verdade na cabeça dos fracos.

  2. Tempo de Dondon

    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    Nossa vida era mais simples de viver
    Não tinha tanto miserê, nem tinha tanto tititi
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí (2x)
    Fast food era merenda
    Breakfast, café da manhã
    O hipermercado era venda
    E “halls-mentolips”, bala de hortelã
    Hortifruti era tudo quitanda
    E jeans era só calça Lee
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    Desemprego era desvio
    Loteria era contravenção
    Metida era pessoa esnobe
    E quem fazia lobby, era “um bom pistolão”
    INSS não tinha
    Só IAPC, IAPETC e IAPI
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    Tinha cérebro eletrônico
    E vitrola tocava Long Play
    Afeminado, invertido,
    Gorgota e enrustido era o nome dos gays.
    Pedófilo era tarado
    Transformista hoje é travesti
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí
    No tempo que Dondon jogava no Andaraí

  3. RAUL MIRANDA PENNA disse:

    E mais uma vez a Globo escancara sua preferência pelo Patético. O jogo deles estava marcado para o sábado e certamente seria transmitido pelo PPV e o clássico do domingo pela “poderosa”. Com a mudança do jogo de sábado para domingo, houve uma inversão, com o jogo do Cruzeiro ficando para o PPV, com a aquela imagem horrorosa, e o outro transmitido em HD. Lembro que, no último Brasileiro, a Globo cortou a transmissão da partida Coritiba x Cruzeiro, para passar lances do Patético contra o Botafogo.

  4. teixeira disse:

    Público de 303 testemunhas no jogo guarani x tombense. Aqui em minha cidade, quando o Portuense (verdão) enfrentava, Aymorés, Operário, Montanhês, Espartano, Bandeirantes, Ribeiro Junqueira, Itararé, América, Pombense, Dona Euzébia etc, o mínimo de torcedores passava de 2.000. Que venha a Sul Minas!

  5. Eduardo Arreguy Campos disse:

    Se o Henrique Ribeiro disse que o américa não é decacampeão, eu acredito nele.

    • Quando não gostava da história, Stalin tb a reescrevia.

      • Eduardo Arreguy Campos disse:

        Resta saber quem está reescrevendo a história no caso do decacampeonato.

    • Naldo disse:

      Quem é Henrique Ribeiro?

    • EduarCAM, O Carlos Henrique RIbeiro, em que pese as minhas sérias contundentes divergências com o pensamento dele, é o ÚNICO, eu disse ÚNICO, que frequenta todas estas redes sociais que fez uma pesquisa aprofundada sobre a história do futebol mineiro, do Cruzeiro desde 1921, do Mineirão e muito mais. Não é àtoa que ele é autor do Almanaque do Cruzeiro e co-autor de um Livro sobre o Mineirão e Campeonato Mineiro. Eu disse ÚNICO. O resto, inclusive estes merdas da FMF que não reconhecem o título de 1926 do Cruzeiro, e os seguidores vendilhões destes BANDIDOS da FMF e mídia não sabem de nada e escrevem e reescrevem a história que eles querem. Esta FMF pos fogo na história do Campeonato Mineiro de décadas passadas e não fala sobre o assunto. DISCORDO em Milhões de coisas que pensa e escreve o Henrique Ribeiro, ele não topa ceder em nenhuma delas, questioná-lo em seus argumentos e fundamentos no caso do decacampeonato (será?) dos pomponzinhos, é coisa de gente incompetente, falaciosa e invejosa.

  6. Aviso aos navegantes: este post é sobre um capítulo da história de Cruzeiro x América. Para pitacos sobre outros jogos, existe o post dos estaduais.

  7. gsalbuquerque disse:

    Fantástico o post!!!! Tenho muito orgulho da origem do Cruzeiro e devemos sempre rememorar nossa história. Se não somos queridos, que continuem sofrendo com dor de cotovelo! Dá-lhe Palestra! Vejam, mais de 100 anos e todo esse apoio, e reconhecem ridiculamente que o time atual é o melhor da história do clube de vespasiano. E ainda tem cruzeirense preocupado… Quantos timaços do Cruzeiro nós acompanhamos? Muito melhores que esse asilo instalado na MG010.

  8. Putaquiupariu, parem de chorar, poha! Desliguem rádio e TV, não acessem a internet, parem de ler jornais. Tá bom: o mundo inteiro está contra o Cruzeiro. Todo mundo já conhece essa ladainha. Agora, parem de lamuriar e compareçam aos jogos do Cruzeiro. É só o que interessa.

  9. Eduardo Arreguy Campos disse:

    O américa podia acabar. Duvido que alguém sentisse falta.

  10. Celeste disse:

    Adorei o texto.

  11. Carpe Diem (Renato Faria) disse:

    OT: Infeliz e inacreditável a virada do Borussia para cima do Málaga depois dos 45 minutos do segundo tempo. Senti o golpe como um torcedor Espanhol. Foi algo doído.

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