No setor errado

Por Jorge Angrisano Santana | Em 30 de outubro de 2010

Mauro França

Assistir um clássico no meio da torcida rival foi a experiência mais aflitiva e angustiante que já vivi no futebol. Não recomendo a ninguém, nem a título de curiosidade.

Em 86, eu e alguns amigos da faculdade começamos a ir a todos os jogos do Cruzeiro no Mineirão. Naquele ano, o time fazia uma boa campanha no Brasileiro, a melhor em anos, e classificou-se para a fase de mata-mata. Como era costume na época, o campeonato atropelou o calendário e as fases finais foram disputadas no inicio de 87. Nas oitavas o time passou pelo Joinville e nas quartas enfrentou o rival, que tinha a vantagem de jogar por dois empates.

O primeiro jogo, num domingo, terminou 0×0. Nesse jogo, estávamos na arquibancada. Para o segundo jogo, na quarta seguinte, decidimos ir de cadeira, onde nunca tínhamos ido.

O amigo encarregado de comprar os ingressos foi para o Barro Preto, onde a fila estava enorme. Resolveu então passar pela sede do rival e como lá a fila estava menor, comprou os ingressos.

Ele só não sabia de um detalhe: as cadeiras inferiores estavam divididas, e em cada sede eram vendidos apenas ingressos para o setor de cada torcida. Sem saber, fomos para o Mineirão com ingressos para o setor da torcida emplumada.

Só nos demos conta da mancada quando entramos no setor determinado no ingresso. Estávamos no meio da torcida emplumada. Por sorte, nenhum dos três estava uniformizado, apenas eu vestia uma camisa azul. Mesmo assim, bateu o pânico.

Tentamos passar para o setor cruzeirense e fomos impedidos por um PM. Explicamos a situação e ele nos mandou falar com alguém da ADEMG.

Saímos, procuramos um funcionário e explicamos novamente a situação. O sujeito não se comoveu com a nossa situação e disse que nada feito, teríamos que ver o jogo ali mesmo.

Com o jogo quase começando, fomos procurar um lugar para sentar e só encontramos na primeira fileira. Ou seja, na nossa frente, estava a geral. Atrás de nós, todas as fileiras de cadeiras. Éramos três no meio de milhares de emplumados. Decidimos ficar o mais quieto possível, sem dar bandeira.

O 1º tempo terminou 0×0. A adrenalina corria e não dava pra extravasar a emoção. Mas o pior ainda estava por vir. No inicio do segundo tempo, Renato Pé-Murcho abriu o placar. Enquanto os emplumados explodiam, nos levantamos e ficamos dando tapinhas nos ombros para disfarçar. Logo depois, Douglas empatou. Vimos o outro lado –o nosso lado– explodir em festa e ficamos lá, quase estáticos, à beira de um ataque de nervos.

Em campo, o time partiu em busca da vitória. Quase no final do jogo, Douglas, que fazia grande partida, acertou o travessão. Instintivamente, me contorci todo na cadeira. Aí um cara do lado falou que a gente podia torcer, que não tinha problema, que ele sabia que éramos cruzeirenses. Agradeci a compreensão e perguntei: E os outros aí atrás, entenderiam? E torci para ele ficar quieto e o jogo acabar logo.

Quando finalmente acabou, saímos às pressas. No estacionamento, começamos a correr e a gritar como loucos, soltando tudo que tinha ficado preso durante a partida. Tínhamos que extravasar de alguma maneira as emoções contidas.

A partida terminou 1×1, os emplumadox se classificaram pra sequência do campeonato (foi desclassificado pelo Guarani na semifinal). A torcida cruzeirense aplaudiu seu time no final do jogo. E nós nunca mais compramos ingressos para o setor errado.

  • Cruzeiro 1×1 Atlético-MG, quarta-feira, 11fev87, 21h, Mineirão, jogo de volta das quartas de final da Copa Brasil 1986 (Campeoanto Brasileiro) – Público: 90.190 pagantes – Juiz: Romualdo Arppi Filho – Amarelos: Gilmar Francisco, Genílson, Eduardo Lobinho (Cru) – Gols: Renato Morungaba, 7, Douglas, 13 do 2º tempo.  Cruzeiro: Gomes I, Balu, Geraldão, Gilmar Francisco e Genilson; Douglas, Ernani (Eduardo Lobinho) e Heriberto; Robson, Hamílton e Edson. Tec; Carlos Alberto Silva / Atlético-MG: Pereira, Nelinho, Batista, Luisinho e Paulo Roberto Prestes; Elzo, Everton (Paulo Isidoro) e Zenon; Sérgio Araujo, Renato Morungaba, Edvaldo (Ramon). Tec: Ílton Chaves.

Mauro França, 47, cruzeirense, economiário, historiador, nasceu em Sete Lagoas, mora em Belo Horizonte.

N.B.: Ficha técnica do jogo de ida: Cruzeiro 0x0 Atlético-MG, domingo, 08fev87, 17h, Mineirão, Belo Horizonte, jogo de ida das quartas de final da Copa Brasil de 1986 (Campeonato Brasileiro) – Arnaldo Cézar Celho – Amarelos: Genílson, Edson (Cru), Luizinho (Atl) – Cruzeiro: Gomes I, Balu, Geraldão, Gilmar Francisco e Genilson; Douglas, Eduardo Lobinho e Heriberto; Ernani (Vanderlei), Hamílton e Edson. Tec: Carlos Alberto Silva / Atlético-MG: Pereira, Nelinho, Batista, Luizinho e Paulo Roberto Prestes; Elzo, Zenon e Éverton; Sérgio Araújo, Ramon (Reinaldo Xavier) e Edvaldo. Tec: Ílton Chaves.

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