Mito pulverizado

Por SÍNDICO | Em 4 de agosto de 2007

por Marcos Pinheiro

Numa entrevista concedida, há pouco tempo, à Revista do Cruzeiro, Zezé Perella cometeu uma gafe histórica. Repetiu um mito mal-ajambrado que alguns jornalistas atleticanos e americanos tentam impor para desqualificar o Cruzeiro. Segundo essa parcela da imprensa, antes do Mineirão, o América tinha mais torcida do que o Cruzeiro.

Na ocasião, Zezé foi desmentido, aqui mesmo no blog, com uma enquête publicada pelo Estado de Minas de 26 de março de 1931, em que o Cruzeiro, então Palestra Itália, aparecia com 35,9% dos votos e o América com 10,8%. É bem verdade que, na ocasião, o Cruzeiro vinha de conquistar o tricampeonato da cidade, mas também é verdade que o América ainda sentia o gostinho de seu decacampeonato conquistado havia apenas seis anos. Época de equilíbrio em campo, pois.

Aqui também se revelou o que dizia a imprensa da época. Em 6 de julho de 1935, às vésperas de um Palestra 3 x 2 Atlético-MG, o Diário da Tarde escrevia: “O encontro entre os dois quadros possuidores dos maiores núcleos de torcida da capital sempre conduzem ao local de sua realização as maiores assistências que se tem verificado em partidas de campeonato” (1).

O mesmo jornal, às vésperas de um Palestra 1 x 2 Atlético-MG, em 26 de julho de 1941, comentava: “A oportunidade que a assistência terá amanhã, no estádio Antônio Carlos, onde se travará o Fla-Flu mineiro, vai servir para demonstrar mais uma vez o quanto empolga a torcida o jogo entre os dois tradicionais rivais. Por isso mesmo espera-se um recorde de bilheteria” (2).

Mas há números também atravessando o caminho desse mito. Em 1965, antes da inauguração do Mineirão, Dom Serafim Fernandes de Araújo, arcebispo de Belo Horizonte, promoveu um concurso para saber quais eram os clubes mais queridos dos mineiros. Seu objetivo imediato era o de levantar fundos para obras sociais da Igreja. Por isso, o torcedor tinha de comprar a cédula na qual indicaria seus clubes preferidos em Minas, no Rio, na Várzea e no Interior.

A época era equilíbrio técnico entre os rivais de Belo Horizonte. Se é verdade que o Atlético-MG havia dominando inteiramente a cena entre a segunda metade dos Anos 40 e o final dos 50 e o Cruzeiro havia conquistado seu terceiro tricampeonato entre 1959 e 1961, o América se apresentava, naquele momento, como o melhor time da cidade. Vinha de um vice-campeonato em 1964 perdido para o Siderúrgica, em casa, quando jogava por um empate. Não se vá, pois, imaginar que a distância técnica a separar o América de seus rivais citadinos fosse tão abissal como acontece hoje em dia.

As urnas do concurso foram espalhadas por vários pontos da Capital e de algumas cidades do interior. Se considerarmos que o voto tinha custo financeiro, é lícito supor que os clubes da elite da Capital, América e Atlético-MG, fossem favorecidos. Ao contrário, Cruzeiro, Siderúrgica e Villa Nova, cujas torcidas eram compostas majoritariamente por trabalhadores levavam, de saída, esta desvantagem.

Foram contados quase 700 mil votos em Belo Horizonte e nas cidades participantes do Interior. Para se ter uma idéia do volume de votos, somente um ano depois, Belo Horizonte atingiu a marca de 1 milhão de habitantes.

Em 2 de julho de 1965, o Estado de Minas publicou a penúltima parcial. Ainda faltavam 40 mil votos a serem computados. Quantia insuficiente para alterar as posições dos principais concorrentes. Por isso, talvez, nos dias subseqüentes, nenhuma matéria tenha sido publicada com os números definitivos. Para o que nos interessa, contudo, estes números bastam (3):

Mais Querido de Minas

  1. Atlético: 344.374 – 54,1% do total.
  2. Cruzeiro: 169.897 – 26,7%
  3. América: 44.673 – 7,0%
  4. Siderúrgica: 32.122 – 5,1%
  5. Vila Nova: 19.912 – 3,1%
  6. Democrata-SL: 10.338 – 1,6%
  7. Guarani: 8.515 – 1,3%
  8. Uberlândia: 4.144 – 0,7%
  9. Renascença: 2.663 – 0,4%

Mais Querido da Guanabara

  1. Botafogo: 394.855 – 62,2%
  2. Fluminense: 136.488 – 21,6%
  3. Vasco: 56.362 – 8,9%
  4. Flamengo: 38.832 – 6,2%
  5. Bangu: 2.814 – 0,5%
  6. América: 1.694 – 0,3%

Mais Querido do Futebol Amador

  1. Nacional: 144.138
  2. Bamba: 139.320

Mais Querido do Interior de Minas.

  1. Ipiranga (Contagem): 252.256
  2. Bela Vista, de Sete Lagoas: 165.618

Como se observa, o Cruzeiro teve 4 vezes mais votos do que o América. Não custa comparar também os resultados desse concurso com os da pesquisa, esta, sim, científica, do Instituto Gallup, publicada na edição 94 da revista Placar, em dezembro de 1971. Nela, o Atlético-MG aparecia com 43% dos torcedores belo-horizontinos, o Cruzeiro com 42%, o América com 5%, os demais clubes mineiros com 1%, enquanto 9% dos entrevistados diziam não torcer por clubes mineiros.

Para melhor comparar os dois levantamentos, primeiro temos que excluir da base da pesquisa de 1971 aqueles que não torciam clubes mineiros. Assim, o Atlético-MG passa a ter 47,8%, o Cruzeiro, 46,7% e o América, 5,6%. Verifica-se, deste modo, que a torcida cruzeirense aumentou, entre 65 e 71, quase 75%, enquanto atleticanos e americanos encolheram em 11,7% e 20%, respectivamente.

Esses números sepultam também outro mito. Ao contrário do que se diz, não é verdade que muitos americanos tenham virado a casaca e passado a torcer pelo Cruzeiro. A diminuição do percentual de participação de atleticanos e americanos certamente se deu pelo aumento da base, pelo fato de muitos mineiros, que não torciam para os clubes locais, tenham passado a torcer pelo Cruzeiro.

É mais do que óbvio que a garotada, encantada pelo futebol de Piazza, Dirceu e Tostão, passou ao largo das preferências de pais e tios atleticanos e americanos e do oba-oba da mídia carioca e escolheu o Cruzeiro como seu time de coração. Afinal, aquele clube tinha colocado o futebol mineiro no primeiro plano nacional ao bater seguidamente o Santos, tido e havido como maior time do planeta.

Contra fatos e números não há lorota que resista. Aos plantadores de mitos, aconselha-se buscar outras terras para semear seus enganos, pois as do futebol mineiros não estão propícias para seus métodos ultrapassados.

Referências:

  • 1 e 2 – Almanaque do Cruzeiro, escrito por Henrique Ribeiro.
  • 3 – Páginas Heróicas, vol. 2, Jorge Santana (inédito).

Marcos Pinheiro, 36, carioca, engenheiro, pós-graduado em economia, estudante de Direito, cruzeirense, mora em Belo Horizonte.

14 comentários para “Mito pulverizado”

  1. Jorge Santana disse:

    Sábado, dolce far niente, vc, caro leitor, pode muito bem gastar alguns minutos lendo o post em vez de partir logo para os comentários.

    Marcos Pinheiro é o maior expert em torcidas nestas Minas Gerais. Ler o que ele escreve sobre o tema, como está mofa dizer, agrega valor à enciclopédia pessoal do futebol que cada um constrói ao longo da militância esportiva.

  2. Marcelo disse:

    Perfect!!!

  3. Há controvérsias.

    Não sou desta época (ainda nem era nascido) mas no futebol amador os times preferidos eram Pitangui, Cachoeirinha, Rosário e outros…

    No futebol do interior, Campolina de Esmeraldas e outros tinham certa preferência.

    Mas no futebol profissional Mineiro e da Guanabara, acho que era isso mesmo!

  4. Jorge Santana disse:

    Entre mortos, moribundos e vivos, Racing, Tremedal, Pompéia, Social Olímpico Ferroviário, Vila Concórdia, Inconfidência, Matadouro, Terrestre, Real Madrid, Pitangui, Cachoeirinha, Santa Cruz, Cruzmaltino, Suzana, Venda Nova, Nacional do Carmo, Montanhês, Mineirinho, Santanense, Textil, Rosário, Bamba, Bola de Ouro, Barreiro, Comercial, Ferroviária, Estrela do Vale, Jonas Veiga, Pastoril, São Bernardo, Itamarati, Riviera, Guaxupé, Ica, Popular, Araribá, Santo André, Paraíso, Santa Lúcia, Forjinha, Estela Azul, Parque Pampulha, Letícia, Social, Palmeirense, Remo, Cruzeiro Suburbano, América Suburbano, Atlético Suburbano, Alvorada, Unidos do Vale, Saudade, Dom Bosco, Cruz Azul, Ouro Preto, Granja Adélia, Retiro, Frigoarnaldo, Guanabara, Aiuruoca, Antares, Napoli, Santa Catarina, Poliester, Atlantic, São Luiz, Radiante, Benfica…

  5. Marcelo disse:

    E a Associaçao Atlética Aciaria?

  6. Jorge Santana disse:

    Vai para um post apropriado. Aguarde.

  7. Marcos Pinheiro disse:

    Não temos pesquisa que nos informe, com margem de erro e intervalo de confiança precisos, como era a torcida em Belo Horizonte em meados da década de 40. Digo Belo Horizonte porque o interior mineiro era dominado pelos times cariocas. Mesmo em Belo Horizonte provavelmente havia parcela significativa da população que só torciam para os times da capital federal.

    Mas o fato de não haver pesquisas científicas não nos impede de fazer algumas ilações. E a primeira que faço é que, na primeira metade da década de 40, a grande maioria dos novos torcedores eram cruzeirenses. Certamente encantados pelo maravilhoso futebol de Niginho, o maior craque mineiro antes de Tostão.

    Por que digo isso? Quem tinha 10 ou mais anos em 1943, tinha 50 ou mais, em 1983. Pois em 1983 o Instituto Gallup publicou outra pesquisa, na revista Placar, e o resultado para essa faixa etária, de mais de 50 anos, foi:
    Cruzeiro: 43%
    Atlético-MG: 36%
    outros times mineiros: 15%

    A pesquisa não diz quem são os “outros clubes mineiros”. Como o âmbito é estadual, não se pode desconsiderar torcedores do Villa, do Guarani etc.

    Avançando um pouco mais, e analisando apenas Belo Horizonte, que tinha 10 ou mais anos em 1944, tinha mais de 70 em 2004. Pois o jornal Hoje em Dia publicou, em novembro de 2004, uma pesquisa realizada pelo Instituo Nexus, que apresentou os seguintes resultados para essa faixa de 70 anos ou mais:
    Cruzeiro: 62,5%
    Atlético-MG: 37,5%
    América: 0%

    Sei que não se pode tirar conclusões sobre qual era a composição da torcida de uma época, utilizando-se de pesquisas realizadas 40, 60 anos depois. Não é possível afirmar, com base nessas pesquisas de 1983 e 2004, que a torcida do Cruzeiro era maior que a atleticana nos anos de 1943 e 1944. E também não é possível se afirmar o contrário!

    Mas números são números. É razoável supor que a torcida do Cruzeiro tenha encolhido entre 45 e 65. Assim como é razoável supor que a torcida atleticana tenha crescido no mesmo período. Por motivos óbvios!

    Enfim, é razoável supor, pelos números apresentados, que, ao contrário do que muitos dizem por aí, o número de cruzeirenses e atleticanos fosse muito mais equilibrado no início de década de 40, e que a torcida do América já fosse muito pequena, não tanto quanto hoje, mas pequena.

    O que não dá para entender é como o vice-presidente do Cruzeiro passa um recibo desses prá lorota verde-emplumada na revista oficial do Cruzeiro. Podiam, pelo menos, publicar os dados e fatos históricos acima, prá remediar a gafe.

    O Cruzeiro sempre foi grande!

  8. frederico disse:

    grande Pitangui…. joguei bola la hehe

  9. Franklin Bronzo disse:

    Às vezes me pergunto se o Zezé e, principalmente, o Alvimar são mesmo cruzeirenses.

  10. frederico disse:

    Me lembrei de algo importante aki… Os perrelas no inicio do ano falram que o cruzeiro tinha uma boa reserva financeira e que se fosse preciso começariam a construção do tal estadio com dinheiro proprio…
    e agora recorrem a emprestimos bancarios?
    q coisa nao?

  11. Daniel Reiner disse:

    Depois de Tiradentes,em Minas qualquer mito pode ser pulverizado.
    Em se tratando de futebol,depois do mito “clube do povão” X “clube da elite” já passou da hora de pulverizarmos mais esse mito.
    Com a força da imprensa cacarejante é mais fácil o 21 de Abril deixar de ser feriado nacional do que a divulgação dessas “novas” verdades.
    Mas com a democratização da informação chegaremos lá(?).

  12. Daniel Reiner disse:

    E convenhamos…Não há tanto interesse,mesmo de cruzeirenses,em corrigir essa “informação plantada” ao longo dos anos.
    Até porque o ser humano vive “dividindo o tempo”.E o futebol mineiro é divido em A.M.(Antes do Mineirão) e D.M.(Depois do Mineirão).
    O A.M. é a ideia do passado,do velho,do ultrapassado,do arcaico,da epoca em que se amarrava cachorro com linguiça.
    O D.M. é a ideia do novo,do moderno,do atual.
    Ou seja,por essa ótica o que aconteceu em outras eras não importa.O que importa é a realidade atual.E essa todos conhecem,mesmo que não reconheçam…O Cruzeiro tem a maior torcida em Minas Gerais.

    Não compactuo com essa ideia mas não é condenavel.

  13. Cláudio Ianni disse:

    O Cruzeiro não tem não é a maior torcida de MG,ele tem é a muito maior torcida de MG !A segunda como sabemos é a do Flamengo !

  14. Sidney dos Santos Rocha disse:

    gostaria que me enviasse uma pesquisa recente sobre torcida em minas gerais, incluindo todos os times brasileiros