Mineiro 1965: Cruzeiro 1×0 Atlético-MG

Por Jorge Angrisano Santana | Em 30 de dezembro de 2010

Cruzeiro vence o primeiro superclássico no Mineirão

A goleada do Cruzeiro sobre o Siderúrgica, uma semana antes, deixou os alvinegros tensos. Aos 7, Bougleaux deu pontapé em Ilton Chaves e o jogo ficou parado três minutos.

Pouco depois, Viladonega acertou Pedro Paulo, que revidou e, por pouco, o conflito não se generalizou.

Incapaz de acompanhar o velocista Hilton Oliveira, o lateral-direito João Batista apelou pra rasteiras, cotoveladas e empurrões.

Juan de la Pasión Artés tentou administrar a violência. Iludiu-se imaginando que, com o passar do tempo, os jogadores se acalmassem e ele pudesse levar a bom termo o primeiro superclássico da Era Mineirão. Não deu certo.

Com Ílton Chaves protegendo a zaga e Dirceu e Tostão armando jogadas de ataque, o Cruzeiro dominou o jogo.

No Atlético, Bougleaux, Viladonega e o atacante Toninho, que recuou para ajudar os meio-campistas de ofício, estavam perdidos.

Diante da superioridade técnica do meio de campo celeste, Bougleaux e Viladonega se limitaram a distribuir botinadas. Isso, quando conseguiam chegar a tempo de disputar a bola com algum jogador de azul.

Tocando a bola com rapidez, os cruzeirenses evitavam o corpo-a-corpo. Sem contar com o apoio do meio de campo, Roberto Mauro virou presa fácil pra William e Vavá.

Na etapa inicial, Tonho só defendeu bolas atrasadas. Algumas com as mãos, o que era permitido naquele tempo.

O gol

Aos 35, Dirceu Lopes lançou Hilton Oliveira. O ponteiro foi à linha de fundo e cruzou. Acossado pela defesa, Marco Antônio rolou a bola pra Tostão, que chutou forte marcando o 1º gol da história do Superclássico no Mineirão.

Pênalti claro!

Na etapa final, o Cruzeiro pôs o Atlético na roda. O 2º gol era questão de tempo e capricho dos atacantes.

Aos 34, Wilson Almeida invadiu a área e foi derrubado por um carrinho do lateral-esquerdo Décio Teixeira. Pênalti claro.

Sururu

Mal acostumados por terem passado pela Era Independência com poucos pênaltis contra, os atleticanos ficaram estarrecidos com a decisão de Juan de la Pasión Artés.

Vander agrediu o juiz, que pediu proteção à Polícia Militar. Como ela não o atendeu prontamente, outros termocéfalos se animaram. Virou linchamento.

O treinador Marão invadiu o gramado e também bateu no árbitro. Só aí os soldados saíram de sua letargia para proteger a vítima.

Seguiu-se uma batalha campal entre jogadores emplumados, inclusive reservas, e policiais. Artés expulsou o time inteiro do Atlético e pôs fim à partida.

  • Atlético-MG 0x1 Cruzeiro, domingo, 24out65, Mineirão, Belo Horizonte, 11ª rodada do Campeonato Mineiro de 1965 – Público pagante: 47.530 – Público presente: 60.000 (estimativa levando-se em conta convites, cadeiras cativas, sócios do Atlético e profissionais trabalhando no estádio) – Renda: Cr$46.884.000 – Juiz: Juan de la Pasión Artés – Bandeiras: Witan Marinho e José Gomes – Gol: Tostão, 35 do 1º tempo – Cruzeiro: Tonho, Pedro Paulo, William, Vavá e Neco; Ilton Chaves, Dirceu Lopes e Tostão; Wilson Almeida, Marco Antônio e Hilton Oliveira. Tec: Airton Moreira / Atlético-MG: Luiz Perez; João Batista, Vander, Bueno e Décio Teixeira; Bougleaux e Viladonega; Buião, Roberto Mauro, Toninho e Noêmio. Tec: Mário Celso de Abreu (Marão).

Xilindró

Luiz Perez, Toninho e o reserva Elci ficaram detidos no Depósito de Presos da Lagoinha até às 22h.

Consolo

Gil César, construtor do estádio, e Benedito Adami de Carvalho, presidente da FMF, ambos atleticanos, foram ao vestiário consolar o juiz.

Lá encontraram Antonio Alvarez e Gimenez Molina, tios do apitador. Nervoso, Molina queria saber por que o sobrinho não abandonou o gramado logo que recebeu a primeira agressão. “Porque não sou covarde”, explicou Artés.

Enxerido

Na saída do vestiário, Adami deu de cara com Nicola Granatta. Além de empedernido termocéfalo, o diretor do Cruzeiro era um tremendo enxerido.

Mesmo não tendo motivos pra se meter na briga alheia, Granatta falou desaforos ao presidente da Federação, segundo ele, responsável pela confusão por sempre proteger os emplumados.

Resultado: foi pra súmula e ganhou lugar no banco dos réus do TJD. Tinha de acontecer. Um sururu no superclássico não ficaria completo só com atores de um dos clubes.

Bicho

O Cruzeiro pagou prêmio de Cr$150.000 a cada titular e metade aos reservas. Era a maior premiação da história do clube, mas condizente com o público pagante, quase três vezes maior do que a lotação máxima do palco anterior do superclássico, o Estádio Independência.

Apesar de tudo…

Apesar do papelão do Atlético-MG, no dia seguinte, a CBD informou à FMF que convidaria os dois clubes pra substituir os atarefados excursionistas, Santos e Botafogo, no Torneio Rio São Paulo de 1966. O que não passou de conversa fiada da entidade-mãe do futebol brasileiro.

Prestígio

Quatro dias depois do clássico, escolhido por professores e alunos, Dirceu Lopes foi homenageado em sessão solene do Colégio Anchieta.

O auditório da escola, na Rua Tamoios, ficou lotado e todo mundo se surpreendeu quando o craque contou que também era estudante.

Dirceu freqüentava a Escola Técnica de Comércio de Minas Gerais.

Ele tinha a cara de uma nova geração de boleiros surgida com o Mineirão. Jovens que não pretendiam viver de glórias passadas.

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