Mestre Zelão, ídolo da facção over 50

Por SÍNDICO | Em 17 de fevereiro de 2010

João Chiabi Duarte

Sou fã incondicional de José Carlos Bernardo, o Mestre Zelão. Quando ele veio do Sport, de Juiz de Fora, para o Cruzeiro, seu futebol já era reconhecido como o de um fora-de-série.

Mas, no Cruzeiro, ele encontrou Wilson Piazza e Dirceu Lopes no meio-campo. Naquela época quase todas as equipes adotavam o 4-2-4.

Natal, Tostão, Evaldo e Hilton Oliveira formavam o quarteto atacante. Não havia disponibilidade de vagas na Academia Celeste.

Só que mestre Zelão era bom demais, passava meses sem errar um passe, e não demorou muito, o Cruzeiro teve que arranjar uma fórmula para torná-lo titular.

A primeira vez que vi Zé Carlos jogar foi na minha estréia no Mineirão, num RapoCota que terminou 3×3, em 26nov67.

Lembro-me, como se fosse hoje, da falta cobrada por ele, no finalzinho, em que a bola explodiu no travessão.

Isto num jogo em que Tostão se contundiu logo no início, Procópio foi expulso e os emplumados abriram uma frente de 3×0.

Nessa ocasião, Zé Carlos ainda não era titular absoluto, o que só aconteceu quando Gerson dos Santos assumiu o comando do time.

Quando ele entrou na equipe, formou-se o Quadrado Mágico com Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes e Tostão.

  • Raul Plassmann, Pedro Paulo, Mário Tito (Raul Fernandes), Fontana e Vanderlei Lázaro; Wilson Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes e Tostão; Natal e Hilton Oliveira (Evaldo).

O time tinha muita mobilidade porque todos giravam em campo e sabiam fazer mais de uma função.

Tostão conta que, certa feita, jogando contra o Atlético-MG e sofrendo marcação implacável do Vanderlei Paiva, o carregador de piano das cocotas, ele propôs uma troca de funções a Zé Carlos.

Vanderlei se atrapalhou todo e o Cruzeiro ainda ganhou a chegada de surpresa de Tostão, que vinha de trás tabelando com o Mestre Zelão.

Zé Carlos jogou tanta bola como titular, que João Saldanha, o convocou junto com Dirceu Lopes, Wilson Piazza, Natal e Tostão para a Seleção Brasileira no final dos anos 60.

Quando Zagallo assumiu, contudo, o meio-campista celeste foi cortado, pois o novo treinador tinha preferência pelos jogadores cariocas.

Eu vi o Zé Carlos jogando como primeiro volante, meia-armador, ponta-de-lança e até como centroavante no Cruzeiro. E sem jamais deixar a peteca cair.

Cerezo me contou que Zelão era marcador implacável. Já no fim de carreira, com menos gás, ele aplicava uns totós no calcanhar do adversário.

O atleticano saia do sério, porque ninguém via, muito menos o juiz.

Era só a bola chegar que Mestre Zelão aparecia pra tirar o espaço do adversário. O jeito era buscar outro setor pra jogar.

Era muito difícil tirar Zé Carlos do sério. Ele era calmo, de pouca conversa, mas quando abria a boca todos paravam para ouvi-lo.

Jamais desqualificava um adversário. Não desmerecia colegas de profissão, mas também não facilitava a vida de ninguém. Chegava junto, marcava forte e sabia se desgarrar e sair pro jogo.

Na maturidade, Zé Carlos começou a comandar os sistemas defensivos de suas equipes valendo-se de sua  capacidade inigualável de ler o jogo.

Mestre Zelão tinha personalidade forte. Quando fez um gol contra no célebre 5×4 sobre o Inter, em 1976, buscou a bola nas redes, praguejou e continuou jogando um bolão.

Uma de suas jogadas que eu mais curtia era o passe de três dedos buscando Joãozinho do lado esquerdo do ataque ou o velho Palhinha, que deixava os beques para trás, metia o gol e corria para abraçar o mestre.

Quando recebeu passe livre do presidente Felício Brandi, Zé Carlos assinou contrato com o Guarani de campinas.

No Bugre, liderou o time dirigido por Carlos Alberto Silva, que conquistou do título brasileiro de 1978 com esta formação:

  • Neneca; Mauro, Gomes, Édson e Miranda; Zé Carlos, Manguinha e Renato; Capitão, Careca e Bozó (Adriano).

Anos mais tarde, Felício Brandi reconheceu ter se precipitado ao abrir mão da geração campeã da Libertadores de 76. Este foi, talvez, seu maior erro em mais de 20 anos de administração.

Depois do Guarani, Zé Carlos passou por vários clubes, entre eles o Botafogo, antes de parar com 35 anos, já nos Anos 80.

O Mestre virou treinador, mas, não conseguiu emplacar um grande trabalho. Mas continuou no futebol ajudando a descobrir talentos para o Cruzeiro.

Zé Carlos não ficou milionário com o futebol, mas, também não passa necessidades.

Certo é que ele continuará sendo um dos maiores ídolos da facção over 50 da torcida cruzeirense, na qual estou inscrito.

João Chiabi Duarte, 56, cruzeirense, engenheiro metalúrgico, colunista do Cruzeiro.Org, nasceu em Conceição do Mato Dentro, mora em Vitória onde trabalha na Cia. Siderúrgica Tubarão.

47 comentários para “Mestre Zelão, ídolo da facção over 50”

  1. Cleber Mendes disse:

    Vi Zé Carlos jogar com a camisa do Cruzeirão MultiSuperCampeão pouquíssimas vezes, nem por isso ele deixa de ser um dos meus grandes ídolos. Para mim, ele tem lugar cativo na seleção dos maiores jogadores do história do Maior de Minas.

  2. Cleber Mendes disse:

    Zé Carlos, grande jogador, craque de bola e um dos maiores que já vestiram a gloriosa camisa azul cinco estrelas do nosso campeoníssimo Cruzeirão MultiSuperCampeão.

  3. Cleber Mendes disse:

    Saíram dois comentários meus sobre o post em questão. Quando mandei o primeiro, apareceu um aviso sobre comentário repetido, daí mandei outro, modificando algumas palavras. Pensei que o primeiro não seria publicado, e desculpem a nossa falha.

  4. Claudinei Vilela disse:

    Se o MPAraná fizesse a metade, talves pudessemos dar a ele essa alcunha de “mestre” que alguns insistem em dar…

  5. Jorge Santana disse:

    Tom tb não chegou a ser um Gershwin.

  6. Jorge Santana disse:

    Tampouco Maradona chegou a ser um Rivellino.

  7. Claudinei Vilela disse:

    Nenhum dedo da mão é igual ao outro!

  8. Dylan disse:

    Grande Chiabi, que belo tributo a esse monumento do Cruzeiro. Um nome e um rosto que se confudem com nossa camisa, com nossa história. Uma das minhas alegrias no futebol foi ter visto seu futebol vistoso, aquele passe tão perfeito que ele fazia parecer a coisa mais simples do mundo. O meio de campo era o território dele, ali o mestre conhecia todos os segredos. Falta apenas registrar que já no fim de carreira jogando pelo Vila ele fez um dos gols mais belos da história do Mineirão. E em cima do Atlético só pra provar que contra aquela camisa zebrada sua grandeza aparecia quase automaticamente. Viva o mestre Zelão.

  9. Celeste disse:

    Bela homenagem. O Zé Carlos foi um jogador além de seu tempo. A imprensa doméstica ajudou o Cruzeiro a desmontar aquele time de 76. Viviam fazendo comparações com aquele jovem time do adversário doméstico que nada ganhou de importante. Cansei de ouvi-los falando da idade de nossos jogadores.

    • Douglas_Sorocaba disse:

      Nossa, então essa postura da imprensa local vem de longa data, hein! Perdi a esperança de viver para vê-la mudar.

  10. Mauro França disse:

    Não sou da facção over 50, mas tenho Zé Carlos como um dos grandes ídolos. Excelente post.

  11. rosan amaral disse:

    Parabéns João Duarte também pela lembrança no post anterior que o blog tá fazendo aniversário hoje: 4 anos. Parabéns a todos que aqui dividem suas alegrias e espectativas. A base desta alegria é o sempre Cruzeiro.

  12. Mauro França disse:

    Parabéns pelo aniversário, Jorge, saúde e paz. E muita força e paciência para seguir com o PHD, que é um espaço indispensável para o torcedor cruzeirense.

    • Mauro França disse:

      A Fabiane e o Vitor mandam abraços.

      • Ricardo Malafaia disse:

        Uai… é aniversário do Jorge Santana também? O Evandro deveria escrever um post dando o troco. De todo jeito, apesar de ter desdenhado do cinemão americano, fica armazenada uma ampola da grande Old Speckled Hen para um encontro futuro.

  13. Ricardo Malafaia disse:

    Prezado João, que coincidência. Meu pai não se cansava de falar deste 3×3. Assistiu o jogo ladeado de um atleticano que não perdoou nas piadinhas. Quando o Cruzeiro fez o 2º, o sujeito fez que ia embora. “Opa! Peraí!Vamos assistir até o final”. Parece que o estádio era mais tranquilo. Parabéns pelo post. E, aproveitando, parabéns ao PHD, que nesses 4 anos conseguiu entrosar um meio campo de muita técnica e mobilidade.

    • Leo Vidigal disse:

      Ricardo, meu falecido Tio Gordo também teve uma história com esse jogo. Ele aguentou as piadas dos galistas que estavam acima dele lá nas cadeiras até o Cruzeiro empatar, mas os caras como sempre não souberam “perder” e partiram pra briga no final. Todos foram parar na delegacia. A sorte dele é que o delegado era cruzeirense e mandou deixar os galistas no xadrez até o dia seguinte e liberou os azuis. Não sei se o Mineirão era tão mais tranquilo…

  14. Renato-SP disse:

    Mais um presente da geração over 50 para as demais. Sempre ouvi histórias maravilhosas do Zé Carlos. Parabéns pelo post João. Parabéns também ao PHD que é em dúvida o refúgio dos Cruzeirenses. Parabéns também ao blogueiro. Saúde JS!

  15. Douglas_Sorocaba disse:

    Eu sou um paulista cruzeirense, único da família nascido fora de MG (meus pais e 2 irmãos vieram de Porteirinha, norte de MG). Obviamente fui (bem) influenciado pelo meu pai, cruzeirense roxo. Ele vai gostar de ler essa bela homenagem do João Duarte, pois cresci ouvindo-o dizer que seu maior ídolo no futebol é o Zé Carlos. Por isso, mesmo sem tê-lo visto jogar, cresci aprendendo a admirá-lo. Tenho um tio que hoje mora em BH que é casado com a sobrinha do Zé Carlos, e é amigo pessoal dele. Segundo esse meu tio, o cara é muito gente boa, e apesar da idade não perdeu a intimidade com a bola. Vida longa ao mestre Zé Carlos! (esse sim parece merecer o título…)

    • Jorge Santana disse:

      Conheço Janaúba, Porteirinha, Riacho dos Machados e Monte Azul. Mas não conto, nem sob tortura, o apelido de Porteirinha pra não arruamr confusão.

      • Douglas_Sorocaba disse:

        Pô, sacanagem não contar, hein! Mais de 90% de minha árvore genealógica, pelo menos até umas 4 gerações atrás, apontam para um lugarejo de Porteirinha que se emancipou e se tornou Serranópolis de Minas. Mais uma farra pública deztepaís, pois como pode se tornar município um lugar que não tem itens estruturais básicos? Não tem posto de combustível, acredita? Nem vou citar hospitais, escolas, universidades, fonte de renda e emprego para os cidadãos locais, etc.
        Bom, deixa pra lá, pois isso rende assunto pra mais de metro.

      • Jorge Santana disse:

        A França tem centenas de municípios sem população. Os nativos fecharam as casas e cairam foram. Só aparecem de vez em quando.

      • Palmeira. disse:

        Douglas, este lance de Posto de Gasolina me fez lembrar de meus tempos de Governador Valadares, onde residi 183/86. Eu era inspetor comercial de um banco e naquela época era comum abrir agencias pioneiras (únicas) em pequenos municípios para conseguir abrir outra em grandes centros. Me mandaram para uma tal de Central de Minas, cidade desconhecida, do leste mineiro. A estrada era terra pura e um poeirão de fazer medo. Chegando em Divino das Laranjeiras, parei num posto de gasolina para tirar a poeira da garganta e perguntei sobre a cidade e sua qualidade. Não é que o cara me disse: “Central é uma cidade boa e tem até posto de gasolina!”
        Que cidadezinho f… Nem TV pegava. Água tratada, só com o jeguinho. Tratava num dia e o jeguinho entregav no outro. Isto é Minas, com seus 850 municipios

      • Jorge Santana disse:

        Divino do Laranjeiras? Conheço. Central? Idem. Goval? Também.

      • Divino DAS Lranjeiras. Ali nas redondezas ainda tem Itabirinha de Mantena, Poté, Ladainha e outros lugares esquecidos que mesmo tendo POsto de Gasolina ainda demorarão alguns séculos para entrar no Google Maps… se bem que….

      • Douglas_Sorocaba disse:

        Palmeira, pra mim é a tal da farra política. Posto de fasolina foi só um exemplo. Devia haver critérios para se criar municípios. Do jeito que é hoje, faz-se emancipações carnavalescas de lugarejos apenas para sugar verba federal, raramente convertida em benfeitorias para a população.

  16. João Duarte,
    No http://www.portaldocruzeirense.com.br tem um espaço apropriado para homenagens aos ídolos como Zelão.
    Lá, ficarão eternizados como merecem.

  17. Jorge Santana disse:

    Este post, originalmente, foi uma carta enviada pelo Dom João Chiabi a um jovem comentarista do PHD. Qual? Advinhem, uai.

  18. JDuarte,
    Em 1968, com Fantoni, Zé Carlos já atuava como titular. Na lateral esquerda ainda não contavamos com Vanderlei “fantasminha”, o revezamento era entre o Neco e Murilo.

  19. Naldo disse:

    Caro Chiabi: obrigado por esta bela história sobre o grande jogador que foi Zé Carlos. Eu não o vi jogar e o que sei sobre ele é atravéz de histórias, e esta sua tá um primor. Parabens!

  20. Olivieri disse:

    Mestre nos campos, mestre na vida.

  21. reinaldo disse:

    Como contemporâneo do Mauro França, – mas não tão velho quanto – e frequentador do Mineirão desde 1974 tive a sorte de poder assistir ao craque Zé Carlos jogar. E tive ano passado a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente e ganhar um autógrafo no manto celeste. Um dos grandes da nossa história.

  22. Binho disse:

    Quando fiz minha seleção de todos os tempos incluí o Zecca. Cracaço de bola.

  23. Marc3lo disse:

    Grande história, de um grande ídolo.Viva o Zelão!!!

  24. Mestre Jorge Santana,
    Acerte a minha idade… ainda estou com 50, rumo aos 51… E posso mostrar a minha identidade.
    Claro que revelaria a sua simultaneamente… Os seus primeiros POSTS demonstraram o seu interesse acerca da questão do GATO LUXEMBURGUÊS…

  25. E não revele a identidade de quem foi o destinatário do texto.

  26. Conheci o Mestre Zé Carlos ano passado aqui em Barbacena. Ele acompanhava a delegação de Júniors num jogo contra o Villa do Carmo. Conversei com ele e tirei uma foto. Pessoa simples e acessível.