Matturi Fabbi, o primeiro professor do futebol mineiro

Por SÍNDICO | Em 18 de abril de 2009

São Paulo, 11dez98 (?) / 24out70

“Futebol é treino e a lei básica do association nunca é desmentida”. Com essa filosofia, Matturi Fabbi revolucionou o futebol mineiro no final dos anos 20. Hoje, parece óbvio, mas naqueles tempos de semi-profissionalismo, não. Fazia pouco tempo que as funções de atleta e cartola começaram a se diferenciar e que os jogadores passaram a obter vantagens financeiras, na forma de gratificações ou de empregos, para se dedicar o clube.

No Rio, o Vasco, havia iniciado a revolução profissionalista no Campeonato Carioca de 23. Com seus jogadores negros, que passavam o dia todo treinando, o time não encontrava grande resistência nos adversários, recheados de rapazes da aristocracia que davam mais importância aos estudos e às profissões que exerciam. No final das contas, mal preparados física e taticamente eles dispunham apenas do talento individual para enfrentar os bem treinados vascaínos.

Em Minas, Atlético e América, com equipes repletas de craques de famílias ricas, dominaram o campeonato de 27. O Trio Maldito – Said, Jairo e Mário de Castro – garantiu o título do Atlético. Para tristeza dos italianos, o Palestra não conseguiu vencer um só clássico.

O mau desempenho do time provocou uma revisão de conceitos dos dirigentes palestrinos. E foi isto que os fez buscar Matturi Fabbi para remontar, sob novos conceitos, o time periquito. No currículo do novo treinador, constava longa carreira como left-half do Palestra paulista (1917 a 1926)  e da Seleção Paulista (1918 a 1921). Esta experiência em canchas de centros mais avançados viria a revolucionar o futebol paroquial da jovem capital mineira.

Em pouco tempo Matturi impôs sua filosofia de trabalho em Belo Horizonte: horários rígidos para treinos, disciplina tática e respeito ao adversário. Sempre que preciso, convocava os atletas para treinar, pelos jornais. E mandava reconhecer firmas para evitar duplas inscrições uma praga que assolou o futebol com a introdução do profissionalismo. E o mais importante: definido o grupo de jogadores, mantinha sempre a mesma escalação para tirar todo proveito do entrosamento do time.

Os resultados foram espantosos. De imediato, ele deu ao Palestra o tricampeonato da cidade perdendo apenas um jogo nos três temporadas. Seu time era imbatível. O Trio Maldito atleticano simplesmente não conseguia jogar contra o Palestra. Continuava dando o que falar, mas apenas em jogos contra os outros times, jamais contra os periquitos da Avenida Paraopeba.

Outra inovação de Matturi foi armar times de bom porte físico. Seus beques eram altos e fortes; no ataque, havia pelo menos um tank para suportar o jogo bruto das defesas adversárias. Baixinhos como Carazo, Piorra e Armandinho, jogavam nas pontas ou na armação.

Em 1932, Fabbi foi treinar a Lazio. Numa época em que os times brasileiros sonhavam com técnicos estrangeiros, ele foi o responsável por oito categorias do time romano. Voltou em 1933 defendendo a tese de que o cálcio era, na verdade, uma variante do football association, tantas eram as diferenças entre os dois estilos.

No cálcio, prevalecia a disciplina tática, a força física e a disposição para buscar a vitória a qualquer preço. E sempre até o final do jogo, como exigiam as multidões que freqüentavam os estádios. Na Itália, não havia espaço para jogadores sem fibra, nem para estilistas puros.

Foi o que ele tentou implantar no Palestra, em seu segundo período à frente do elenco, entre 1933 e 1936. O time estava enfraquecido. Com o profissionalismo, cessaram as contribuições dos italianos ricos e o clube não investia na contratação de jogadores consagrados e nem mesmo de revelações dos times menores. Fabbi teve que trabalhar com jogadores de várzea e juvenis.

Seu grande mérito nessa segunda passagem pelo clube foi o de manter o time respeitado pelos adversários. Com equipes bem melhores, Atlético e Villa Nova sofriam na mão do time guerreiro do Palestra, como o Estado de Minas, contou, depois de um clássico em 1934:

  • “Ainda hontem o placar anunciava no final, os 2×1 a favor do bando verde. Os palestrinos jogaram bem e mereceram a victoria. Todos foram uns grandes esforçados que contribuíram para o tão desejado triumpho. Enquanto no Athletico adopta-se as jogadas de per si, sem arremessos à meta, sem acções de desembaraço, padrão esse que vem sendo de há muito adoptado pelo grande clube, o Palestra procura sempre anniquillar o adversário com o tiro no arco. Sem shoots em goal não se conquista pontos. O Palestra sabe bem disso e sua vanguarda age com desembaraço dentro da grande área, onde todos encontram brechas para empurrar o balão para os paus..”

Além de treinos e disciplina tática, Matturi exigia também respeito ao adversário, outra novidade naqueles tempos. E, pelo menos uma vez, demonstrou isso de forma crua. Num final de jogo em que o Palestra perdia para o América, o zagueiro Mundico chutou o atacante Dutra. Matturi invadiu o campo e, em altos brados, repreendeu seu jogador. Queria um time valente, nunca desleal.

Em 1937, ele se transferiu para o América que despertava de um torpor de dez anos montando um time para campeonar. Não conseguindo impor seu estilo, Matturi voltou ao Palestra em 1938. Em agosto, contudo, vencido pelo cansaço e por uma doença não revelada, ele deixou o clube, após o 2×2 contra o Sete de Setembro, no Barro Preto, pelo campeonato. No mesmo dia, seu discípulo, Italo Fratezzi, o Bengala, abandonava as canchas e assumia a direção técnica da equipe.

Ao todo, Matturi, Matturio, Maturio, dependendo do jornal ou do jornalista que escrevia a matéria, comandou o time periquito em 9 temporadas e 190 jogos, dos quais venceu 105, empatou 29 e perdeu 56.

Na carta de despedida, ele revelou todo seu amor pela instituição:

“Exmo sr, dr. Oswaldo Pinto Coelho,
dd presidente do S S Palestra Itália.

Saudações e apreços.

Achando-me adoentado e a conselho médico, necessito repouso physico para o meu treinamento, razão pela qual venho solicitar-lhe demissão do lugar de téchinico dessa sociedade.

Creia, sr. presidente, que faço sobremaneira constrangido, pois durante o tempo que desempenhei as funcções de preparador da equipe profissional desta gloriosa sociedade, recebi sempre as maiores provas de confiança e apreço de todos os directores e desfructei, sempre, com o que muito me honra, da amizade de todos os bons palestrinos.

Deixo o nosso querido Palestra por motivo alheio, conforme declarei, a minha vontade e quero, mais uma vez, deixar aqui os meus melhores agradecimentos a todos os directores, por tudo o que por mim fizeram fazendo votos pela felicidade de cada um, e de prosperidade para o nosso sempre glorioso Palestra.

Assim sendo, sr. presidente, espero ser atendido no meu pedido e, creia-me, serei sempre amigo e admirador.”

Maturio Fabbi

N.B.: Este capítulo do Páginas Heróicas, vol. II, que antecipo aqui, é um presente do blogueiro para o João Chiabi Duarte, o mais técnico dos comentaristas do PHD.

22 comentários para “Matturi Fabbi, o primeiro professor do futebol mineiro”

  1. Binho disse:

    Obrigado por iluminar minha ignorância jorgesan. Nunca ouvi falar desse senhor até o Chiabi cita-lo no outro post. É um tijolo de grande importância no alicerce de nossa história. Saúdo e reverenciao Matturi Fabbi. Vida longa ao Cruzeiro.

  2. Arthur disse:

    1. Devo ter sido aluno dele, em alguma vida passada. É tudo o que sempre digo: treino de arremate, pontaria, simplicidade, previlegiar o colega livre, marcação, roubar a bola e sabere não deixar o adversário jogar sem ser desleal. Fácil de falar, na prática, dificil de conseguir… Hoje, o cara ganha milhares de panteras, tem um apartamento ($$$) sobre 4 rodas, mulherão ou um monte de porta-chuteira disponivel, vivendo do bom e do melhor… e ái, faz o cara TREINAR sério, faz o cara deixar de ser fominha e aparecido (“star”), faz o cara descer do pedestal e marcar o bom jogador adversário, faz o cara dar um passe que presta por companheiro marcar o gol… E quando marca, ve se ele lembra de quem deu o passe, e se comemora com os companheiros ou vai se divertir “sozinho”?

    2. Pontos pro ABap, que muitos não querem ver… não é por acaso que ele trouxe o MARCOS PARANÁ, o FABRICIO, etc. São exemplos de um tipo de jogador, que cada dia fica mais raro de encontrar… Como ele próprio! ABS/ART

  3. Arthur disse:

    Esclarecendo: raro de encontrar como o tipo de técnico, como o MATTURI FABBI! (PS: EU não gostei nada da cotovelada no nariz do VERON, se o árbitro desse o vermelho, seria justo!, se fosse o técnico teria substituido o jogador, o mais prontamente…)

  4. Dylan disse:

    que exemplo de homem e profissional…

  5. Prezado Jorge Santana, pois digo que o futebol inovou muito na preparação física dos anos 70 para cá, mas, os seus conceitos básicos mais importantes continuam sendo os mesmos. Veja o suco de ótima qualidade deste seu texto sobre como Matturi Fabbi enxergava o futebol.

    1. Horários rígidos para treinos, disciplina tática e respeito ao adversário. Hora, ontem, hoje e sempre, não se consegue resultados sem disciplina. Seja obedecendo a hierarquia ou mesmo disciplina tática. Receber uma missão e executá-la da melhor forma possível.

    2. Definido o grupo de jogadores, mantinha sempre a mesma escalação para tirar todo proveito do entrosamento do time. Este é o jogador mais caro que há em um time de futebol. É preciso se treinar e verificar quem encaixa com quem, dentro do esquema tático que se quer utilizar. Mas, como a condição física é valência por demais importante na atualidade do mundo do futebol, muitos optam por dar descanso aos jogadores mais importantes para que possam se doar ao máximo nos jogos mais relevantes do clube. É preciso também se dar valor ao que brota nos dias de hoje, mas, ainda ficaria mais preso ao que nos ensinou Matturi Fabbi.

    3. Objetividade. Sem muita frescura. Afinal “o Palestra procura sempre anniquillar o adversário com o tiro no arco. Sem shoots em goal não se conquista pontos…” – Só que para muitos retrógrados que permeiam o mundo do futebol cheio de conceitos, mas, nada de muito firme além de jogar numa retranca, o gol é só mais um detalhe, não é mesmo sr. Parreira. Mais um golaço do Matturi Fabbi.

    4. Acreditar na beleza do futebol. Quando ele voltou para o Brasil havia observado que “Na Itália, não havia espaço para jogadores sem fibra, nem para estilistas puros.”. Ele disse que queria um time valente, mas, não desleal… Ora, desarmar é que permite ter o controle da cancha. Quem controla a bola por mais tempo e joga com objetividade certamente terá mais chances de ganhar. Sem fibra, sem raça, sem gana e sem valentia não se ganha jogos decisivos. Mas, isto não é incompatível com a presença em campo dos estilistas puros, do talento inovador, da criatividade. Por esta razão, ele tenha afirmado que a Itália praticava um braço do futebol association… E nem era o tempo do cattenaccio, do ferrolho, dos esquemas defensivos, de se preocpuar em jogar apenas no erro do adversário, como fundamento básico. Mais um ponto para o Matturi Fabbi.

    Pois é, por estas e outras é que vejo o futebol jogado como nos tempos do pai do Zizinho, o WM ainda anda por aí, revestido de muito preparo físico e não há nada mais bonito que ver um jogo de 2 times que jogam no WM puro… Querem um exemplo? Chelsea 4 x 4 Liverpool dias atrás… Obrigado, Jorge Santana por mais esta pérola… Saudações Azuis – JCDuarte

  6. walfrido disse:

    Mais uma página histórica que não conhecia, sensacional. Já enaltecia valores imprescindíveis até hoje: treinamento duro, disciplina tática e respeito ao adversário, bem como vigor físico em certas posições. Sensacional.

  7. Naldo M disse:

    OFF – Resumo da entrevista do Juca Kfouri com o Alexandre Kalil. Eu assisti. “Em Belo Horizonte nem um filho de atleticano quer ser cruzeirense, mas existem vários filhos de cruzeirenses que desejam desesperadamente serem atleticanos ”

  8. Nada a acrescentar no capítulo das grandes Páginas Heróicas Imortais do Cruzeiro. Quem escreve uma carta de despedida como escreveu Matturi Fabbi, mereceria muito mais do que a simples lembrança. Parabéns ao Jorge Santana – que ficava cornetando Matturi Fabbi por detrás do alambrado no Estádio JK – por se redimir das cornetadas com este belo resgate histórico.

  9. Naldo M disse:

    O Adilson Baptista é o nosso atual Maturio Fabbi. Basta perguntar ao time do cais sêco. Jorge, uma bela história!!!

  10. Jorge Santana disse:

    Evandro, eu não existia – e nem o Estádio JK – nos tempos do Fabbi. Mas meu pai e meus tios, certamente, devem ter passado algumas instruções ao treinador. E o Bengala, substituto do Matturi, foi o maior corneta da história do futebol mundial. Geniba teria trucidado o ídolo palestrino se vivesse naqueles tempos.

  11. Jorge Santana disse:

    Pela pontuação atual, ele teria alcançado 65% de aproveitamento em suas passagens pelo Cruzeiro. Pela pontuação da época, 70%. Em sua avalaiação deve-se levar em conta que, em 5 dos 9 anos em que esteve à frente do time, ele o investimento do Palestra era muito inferior aos do Atlético-MG, Villa Nova e Siderúrgica.

  12. Frede disse:

    Que chique! O JOrge e o Evandro já trocavam voadoras nesse tempo! Imagina o Evandro com um lambe lambe indo pro estádio e o Jorge com um caderno de papiro, tinteiro e pena!!

  13. Mauro França disse:

    Matturi Fabbi merece todo nosso respeito e reverencia. Figura importantissima na história do clube.
    E obrigado, Jorge, por mais essa aula.

  14. Jorge Santana disse:

    Comigo, não, Frede. Vai ver que o Evandro brigava com meus tios, com os primos do Niginho, os irmãos do Bengala, os cuhados do Mario Grosso. Eu sou da Geração Pós-Beatles.

  15. Naldo M disse:

    Bem – Pior que o boquirroto falar o que falou, é ele acreditar que isto é verdade.

  16. jrgalvao disse:

    Tenho um enorme respeito por todos os treinadoes que ja passaram pelo Cruzeiro, pois de uma forma ou outra ajudaram nossa agremiação, a construir uma bela história. Mas existem tecnicos e técnicos, razão pela qual tenho que prestar uma homenagem ao maior deles, dentre tantos grandes, que ja dirigiram o Cruzeiro, com competencia, e o meu maior idolo foi sem duvida o Enio Andrade. Esse sim respeitou a gandeza do Clube em uma epoca dificil. Fica muito facil, para a meninada ficar falando sobre luxa, mas foi seu Enio, que resgatou a estima do Cruzeirense, queiram alguns ou nao. O seu Enio tambem foi atacado violentamente pela imprensa, mas saiu vitorioso. Tambem, tem orgulho dos irmãos Moreira Airton, (este pelo maior titulo 66) e Zeze( este pelo titulo mais importante falando das américas) e Orlando Fantoni.

  17. Prezados Srs., quem não vê o jogo entre Santos e Palmeiras, não sabe o tanto que o time do peixe foi melhor que o Porco. Vágner Mancini ajeitou o time. Um meio-campo com Roberto Brum (Pará), Germano (sim, aquele mesmo que passou sem brilho pelas Cocotas vindo do Ceará) , Paulo Henrique Ganso e Mádson + Neimar e Kléber Pereira na frente matou o time do Luxa… Todos falam do Neimar… Ele não jogou bem, mas, deu o passe do 1° gol e sofreu o pênalti do 2° gol… Mas, o cara que me encantou foi Mádson que fez dupla, tripla função… Um monstro… Jogou demais o campeonato inteiro. O time do Palmeiras se perdeu completamente. Keirrison não fez nada em nenhum dos jogos decisivos. Foi ANULADO pelo Fabão… o beque que estava em litígio no Santos e que eu tinha pedido para vir para o Cruzeiro antes da chegada do Ânderson… Luxa está em maus lençóis e dificilmente vai ficar no Palmeiras para o Brasileiro, principalmente se não conseguir o milagre da RESSURREIÇÃO na Libertadores.

  18. Rodrigo Gomes disse:

    E qual será a punição do Diego Souza? Agora que eu quero ver.

  19. Naldo M disse:

    Pois é Chiabe, o Luxa vai assistir as finais do paulista da arquibancada ou pela TV. Será que o Cruzeiro não aceitaria trocar o Adilson por ele? Tem muita gente que vai gostar.

  20. Matturi Fabbi – 5º técnico que mais dirigiu o Cruzeiro em todos os tempos. 190 jogos / 105 vitórias / 29 empates / 56 derrotas / periodos no comando: 1928 a 1931, 1932 a 1935 e 1938 a 1940. / Títulos: Tricampeão Mineiro 1928-1929-1930.

  21. Jorge Santana disse:

    Marra, depois da carta de agosto de 1938, Fabbi só voltou a Beagá uma vez, num jogo festivo pela volta de Niginho ao Palestra (4×0 sobre o Atlético-MG), em fevereiro de 39. O treinador das temporadas 39 e 40 foi Bengala (com passagens dos interinos Nello Nicolai, Mario Grosso, Americo Tunes e Nullo Savini).