Hilton Oliveira, o futebol em velocidade máxima…

Por SÍNDICO | Em 3 de março de 2006

                                                              Belo Horizonte (MG), 30/09/41 – 03/03/06

A esfinge

Era extraordinário ver Hilton Oliveira, um dos maiores pontas da época de ouro do futebol brasileiro, que se estendeu de 1958 a 1970, tomando o lotação (ônibus urbanos nos anos 1960) como qualquer cidadão. Ele subia no ponto em frente à igrejinha, hoje demolida, do Bairro São Francisco, ali no cruzamento da Avenida Antônio Carlos com o Anel Rodoviário.

Eu ia para o Colégio Municipal, no São Cristóvão. Ele, suponho, ia para o Barro Preto treinar. Hilton era um dos meus ídolos no futebol, mas eu não tinha coragem de me aproximar, puxar uma conversinha, pedir um gol que fosse contra o adversário do próximo domingo. Perguntar por que ele não tinha carro. Será que não sabia dirigir? Perguntar qualquer coisa, nem que fosse pra ter o que contar, à noite, pra turma da minha esquina lá no Universitário. Mas eu jamais tive coragem. Ele me parecia distante. Concentrado. Calado. Viajava em pé. Não se incomodava com o entra-e-sai de passageiros. Parece que nem se dava conta que todos os olhos estavam postos nele, uma celebridade na Belo Horizonte da minha adolescência. Era uma esfinge!

A coragem que me faltou de menino, apareceu quase 40 anos depois quando, sabedor de que ele estava trabalhando na Ademg, liguei e pedi uma entrevista para o livro que eu estava escrevendo para a Coleção Camisa 13.

Conversamos, enfim. E ele continuou me parecendo o mesmo sujeito que eu via no lotação Universitário/Centro. Econômico nas palavras, pouco efusivo, embora atencioso. E o capítulo, que acabou não saindo na primeira edição do livro, só pode ser completado quando, dias depois, consegui falar, por telefone, com seu irmão Hamilton, que me contou um pouco mais da passagem do craque pelo futebol carioca.

Naquela tarde, no Mineirão, quando a esfinge falou, foi para fazer sua profissão de fé no jogo quase artístico do seu tempo: “O futebol perdeu muito de sua graça com o desaparecimento dos pontas. Era bonito ver um ponteiro driblar e cruzar lá da linha de fundo. Vou ser sincero: eu vibrava mais com os gols que os companheiros faziam aproveitando meus cruzamentos do que com os que eu mesmo marcava.”

No Barro Preto

Filho dos vilanovenses José Satiro e Ligia, irmão mais velho dos cruzeirenses Hamilton e Faraíldes, Hilton José de Oliveira passou a infância na Rua Uberlândia, Bairro Carlos Prates. Seu primeiro clube, em 1956, foi o Racing da Rua Rio Casca. Um ano depois, foi para o Tremedal. Em 1958, já estava nos juvenis do Renascença, time profissional de uma fábrica de tecidos. Quem o levou para treinar no Barro Preto foi Adelino, auxiliar técnico do Cruzeiro. Sua aprovação foi imediata. Bastou um treino para que Joaquim Gramiscelli, diretor de futebol, o contratasse – 4 mil cruzeiros mensais – e o treinador Danilo Alvim lhe desse a camisa 11 do time profissional.

Seu estilo tinha a espontaneidade do futebol de várzea. Os dribles e a malícia faziam lembrar seus ídolos Garrincha e Canhoteiro. O Diário da Tarde de 11 de setembro de 1958 se derramava: “Será um novo Pelé? Talvez venha a ser, talvez, não. Mas o fato é que o garoto tem tudo para se firmar. Ágil, sabendo dominar bem a pelota, principalmente com o pé esquerdo, atirando com habilidade ele despertou imediata atenção…”

Mas, para se dar bem no futebol, além de talento é preciso sorte. Hilton foi campeão mineiro de 1959, logo em sua temporada de estréia. E foi o destaque do jogo do título, aquele que fica para sempre na memória do torcedor. Ele conta um pouco do que aconteceu no superlotado Estádio JK – 11 mil torcedores, quase o dobro de sua capacidade oficial –  naquele Cruzeiro 3 x 1 Democrata (Sete Lagoas) de 20 de março de 1960: “Fiz o primeiro gol ali do lado da Rua Araguari. Foi de peixinho, aproveitando um cruzamento do Emerson. Depois, do lado da Ouro Preto, eu cruzei e ele marcou o segundo. O título estava ganho mas o Emerson ainda marcou outro gol. Eu nunca tinha visto um estádio tão lotado e nem uma festa tão incrível como a daquele meu primeiro título.”

Nas Laranjeiras

Em 1960, conquistou outro título mineiro e foi contratado pelo Fluminense, por indicação de Aírton Moreira. No tricolor, seu estilo mudou. Trocou os dribles pela velocidade. Zezé Moreira exigia que ele fosse à linha de fundo e cruzasse com força para a área onde o centroavante Valdo se encarregaria de marcar os gols. Não podia mais driblar para não atrasar as jogadas.
O drible só era permitido em jogos no exterior. Valia como um bônus para os empresários que vendiam “a magia do futebol brasileiro” nos mercados europeus e latino-americanos.

Nesses jogos, Zezé relaxava a disciplina tática e Hilton voltava a jogar como no início da carreira. “Tive grandes treinadores, cada um a seu modo. Niginho era calado, mas enxergava o jogo como poucos. Costumava decidir as partidas mudando o esquema no intervalo do jogo. Martim Francisco dava aula de tática e Zezé Moreira era tão exigente na disciplina pessoal quanto na obediência tática.”

Hilton amadureceu, tática e tecnicamente, no Rio, mas o revezamento com Escurinho não o agradava. Não aceitava o banco de reservas. Preferia jogar no time de aspirantes pelo qual, aliás, ganhou os títulos de 62 e 63. Por isso, recebeu com entusiasmo a proposta que Felício Brandi lhe fez de voltar ao Cruzeiro: “Eu sabia que o Mineirão ia mudar o futebol mineiro, mas vou ser sincero, foi muita sorte encontrar um time com Piazza, Tostão e Dirceu Lopes. Aí, ficou fácil ser campeão todo ano.” 

Na Academia Celeste

Tostão conta que, talvez por ser um pouco mais velho do que os companheiros, Hilton era o mais exigente, o que mais cobrava do time. Ele explica: “Eu jogava calado, mas se alguma coisa me incomodava, eu reclamava porque conhecia o potencial do time.”

Na Academia, viveu sua melhor fase. Jogava em alta velocidade e cruzava bolas rasteiras para a finalização dos baixinhos do ataque. Não se tem notícia de lateral de sua época que conseguisse acompanhá-lo. “Naquele 6 x 2 contra o Flamengo, em 66, quase todos os gols saíram de jogadas minhas. O Murilo [lateral-direito do Flamengo] subia ao ataque e o Tostão enfiava a bola em suas costas. O Ditão [zagueiro central] vinha na cobertura, eu tocava a bola em frente, ele passava batido  e eu voava até a linha de fundo. Depois era só cruzar e comemorar. Outro jogo que não esqueço foi aquele 1 x 0 contra o Fluminense pela Taça Brasil de 1966. Com o tornozelo machucado, só consegui jogar até o final por causa do incentivo da torcida. Foi um sofrimento. Eu tinha que jogar em alta velocidade, era um pique atrás do outro. Não podia parar, tocar a bola, economizar o tornozelo, que doía cada vez mais.”

As boas lembranças

Das amizades feitas no futebol, Hilton lembra-se com carinho especial de Clara Nunes. Os dois foram revelados na mesma época. “Eu jogava no time da fábrica Renascença, onde ela trabalhava. Quando fui para o Cruzeiro, a gente continuava se vendo com freqüência, pois ela cantava nas festas da sede urbana, no Barro Preto. Ela era tão apaixonada pelo clube que foi eleita madrinha da bateria que animava o time no Mineirão. Clara não perdia jogo e sofria até nos mais fáceis, sempre tremendo e roendo as unhas.”

Participar da Seleção Brasileira em 1967, que conquistou a Copa Rio Branco, em Montevidéu, foi uma de suas maiores alegris. “Empatamos três vezes contra o Uruguai (0 x 0, 2 x 2 e 1 x 1) e ficamos com a taça. O time era Félix, Everaldo, Jurandir, Dias e Sadi; Piazza, Dirceu Lopes e Tostão; Natal, Paulo Borges e eu. O treinador era o Aymoré Moreira. Trabalhei com os três irmãos Moreira. Em comum, só tinham a competência porque, no mais, eram bem diferentes.”

Hilton encerrou a carreira em 1971, depois de breves passagens por Internacional e América. Ao todo ele jogou 331 partidas e marcou 33 gols em seus 10 anos de Cruzeiro.  Conquistou sete vezes o título mineiro, foi campeão brasileiro em 1966, da Copa Belo Horizonte, em 1960, e até do Torneio Início de 1966. 

Hoje, ele desfia lembranças: “Joguei com os meninos de ouro do Cruzeiro, ao lado de Castilho, Altair, Valdo e Pinheiro, no Fluminense; contra o Santos de Pelé, Coutinho, Edu e Carlos Alberto Torres, o maior lateral de todos os tempos; contra o Palmeiras de Ademir da Guia, contra o Bangu de Zózimo e o de Paulo Borges, contra o Corinthians de Rivellino. Joguei no melhor tempo do futebol brasileiro”

Para alguns dirigentes, foi só elogios: “Trabalhei com grandes dirigentes como Felício e Furletti. O Cruzeiro está sempre revelando gente competente. Veja, agora, o caso dos irmãos Alvimar e Zezé Perrella. Eles construíram essa maravilha que é a Toca da Raposa II, quando a maioria dos clubes ainda não têm nem um centro de treinamentos nem parecido com nossa velha Toca construída pelo Felício.”

Hilton Oliveira tem razão. Gente como ele, Clara Nunes, Felício e Furletti não aparecem todo dia por aí. E nem em qualquer clube. São estrelas exclusivas da constelação cruzeirense.

12 comentários para “Hilton Oliveira, o futebol em velocidade máxima…”

  1. Wilson Flávio disse:

    Leitura tão gostosa não há! Cruzeiro, craques, futebol, vida simples, tempo bom! Hilton, que Deus o tenha. Tenho certeza que no céu há pontas. Você de um lado, Garrincha do outro!

  2. Evandro disse:

    As memórias de craques como Hilton de Oliveira, não cabem em espaços efêmeros como Blogs e notícias esparsas. Temos que providenciar uma forma de imortalizar nossos ídolos que ajudaram a construir a história destes 85 anos do Cruzeiro de maneira mais permanente. Assim se faz a história da naçao estrelada.

  3. Walterson disse:

    Bons tempos! Tempo em que um jogador podia dizer que jogava por amor à camisa, pois hoje…

  4. Carlos Campos disse:

    Parabéns Jorge,
    grande narrativa de um grande jogador! ESTRELA BRILHANDO NO CÉU AZUL CELESTE!

  5. Jorge Santana disse:

    Wilson, Evandro, Walterson e Carlos, já não está passando da hora do nosso clube ter um memorial? Às vezes, tenho a impressão de que a história da instituição fica num segundo plano e só se valoriza os resultados e os negócios imediatos. Milhões de cruzeiresnes ainda nem foram iniciados na história do clube. Quando isso acontecer, ficarão ainda mais fanáticos e não se deixarão levar por angústias tão pequenas qunto o papel do time em uma ou outra competição isoladamente.

  6. Eu sou um dos que não teve o provilégio de ver jogar este que meu pai intitula de “cracão de bola”…
    Infelizmente…
    Concordo com você, o cruzeiro precisa de um memorial (se já não tem, pois não conheço).
    A sede grandiosa que construiram ficaria mais bonita com a história do clube contada através de arquivos de vídeo, foto e reportagens da época.

  7. Evandro disse:

    Estava PREVISTO que o segundo andar da sede administrativa do Barro Preto seria integralmente deste memorial. Nao vejo falar de mais nada sobre o assunto. É um tema a ser cobrado do Alvimar em uma de suas entrevistas na Revista do Cruzeiro, nas rádios, jornais e TV. Vamos ver quem tem coragem para formular a pergunta.

  8. Jorge Santana disse:

    Rafael e Evandro, acho que o memorial deveria ser na Guajajaras. É lá que está nossa história. Além do mais, a sede administrativa deveria ser preservada para as atividades a que se destina. Se fizessem algo parecido com a do Boca Juniors, poderiam cobrar ingressos e ela se pagaria só com as visitas. O Cruzeiro precisa valorizar sua história. E até faturar com ela.

  9. Evandro disse:

    Como as coisas são interessantes.
    Vejam o pedaço de relato que retirei do site do Alex10…

    “…Hilton Oliveira

    Tive a oportunidade de conhecê-lo em minha passagem por Minas Gerais. Não o vi jogar, mas só ouvi coisas boas a seu respeito. Ele nos deixou, mas sua história fica na memória. Minhas condolências à família. Ao futebol, fica a saudade…

    Abraços e até mais,
    Alex”

    O cara é mesmo deferenciado dentro e fora de campo.

  10. Jorge Santana disse:

    Ou, no mínimo, tem uma assessoria de imprensa melhor do que a dos outros. Brincadeira à parte, acho que o Cruzeiro poderia mandar uns 15 jogadres para o Fernebarche em troca do Alex. Precisa montar a lista ou ela é óbvia demais?

    Eu só não exigiria do Alex retornado que ele fosse aquele mesmo de 2003, porque isto seria impossível. Aquele cara que vestiu a 10 do Mais Querido de Minas em 2003, não era um mero jogador de futebol. Era um profeta. Um enviado de Deus pra nos livrar do inferno da falta de um título que, embora já tivéssemos desde 1966, muita gente ainda se negava a reconhcer. Um título que nós queríamos ganhar de novo pra esfregar na cara dos cretinos que se negavam a reconhecer a suprema glória.

  11. José Marques Dutra disse:

    Jorge Santana, nascí e fui criado na Rua Riocasca, 580. Joguei com Hilton Oliveira no Tremedal. Estudamos no Grupo Escolar Lúcio dos Santos. Moro em São Paulo desde 1.962. O que você escreveu sobre o Hilton me emocionou pela riquesa de detalhes e tambem pela precisão das informções. Fiquei sabendo da morte dele ao ler no seu Blog. A última vez que estive com êle foi aquí em S. Paulo após a vitória sobre o Santos por 3×2 no Pacaembú. Tomanos um chopinho gelado na Galeria Mteropole junto com Tostão.
    Parabéns pelo ttrabalhao.
    José Marques Dutra
    jmadutra@ig.com.br

  12. Jorge Santana disse:

    José Marques Dutra, eu vi aquele jogo pela TV. Ou melhor pela televizinho, pq não havia mais do que três televisões no meu bairro, nenhuma delas na minha casa. Se a gente contar a emoção que tomou conta de todos os mineiros, ninguém vai acreditar. Muitos atleticanos e americanos torceram por nós. O foguetório na noite de Belo Horizonte foi imenso.

    Três anos depois da conquista do Brasileiro de Seleções, aquela vitória contra o Santos nos redimia de décadas de humilhação nos confrontos com paulistas e cariocas. Não que tivéssemos sempre perdido. Muitas vezes, vencíamos mas, para a imprensa paulista e a carioca, era como se não tivéssemos vencido.

    Naquela noite, o Brasil inteiro, pecebeu que as fornteiras do futebol estavam se alargando. Em pouco tempo, o Rio-SP desapareceu. Veio o Robertão com a presença de times mineiros, ga~uch0, paranaenses e pernambucanos. Depois, criou-se Campeonato Nacional etc.

    Mas tudo começou com aquele segundo tempo extraordinário. Sobre esse jogo que vc assistiu, gostaria de receber um post contando a história e as circunstâncias que cercaram sua ida ao estádio, o que vc viu, o que te emocionou, como foi o jogo, a comemoração depois dele, suas memórias, enfim.

    Abs,
    Jorge Santana
    P.S.: Caso queira, pode mandar sua história para jorge.santana@yahoo.com.br