Geraldo II, o atleta perfeito

Por Jorge Angrisano Santana | Em 29 de junho de 2007

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Morreu Geraldo Domingos, um dos maiores goleiros da história do Cruzeiro. Do Palestra e do Cruzeiro, pra ser mais preciso. Por tudo o que fez pelo clube, ele merecia uma estátua na entrada da Toca. Mas quem se importa com os grandes nomes do passado?

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Geraldo II, o atleta perfeito

  • Matozinhos-MG, 20jan18; Belo Horizonte-MG, 28jun07

Quando jogava no Siderúrgica, o meia Paulo Florêncio enfrentou Geraldo II por mais de 10 anos. Depois, no ocaso da carreira do goleiro, os dois tornaram-se amigos atuando pelo Cruzeiro. Hoje, octogenários, quase não se vêem, mas guardam uma admiração mútua que se expressa em palavras de elogio. Para Geraldo II, Paulinho impressionava pela jogo técnico e pela elegância dentro e fora de campo. Para Florêncio, “Geraldo II foi um colosso! Um atleta perfeito! Era também um homem honesto, reservado e que não perdia tempo com as brincadeiras tão comuns no meio do futebol. Trabalhava o dia todo como pedreiro e quando ia para o clube era para treinar e jogar, não pra se divertir. Não vou dizer que ele fosse sisudo, mas era calado e até meio bravo quando mexiam com ele. Debaixo do gol, era perfeito. Alto, forte e ágil, não tinha medo de se expor. Todo mundo se admirava com suas saídas perfeitas para cortar as bolas altas e com a coragem para pular nos pés dos atacantes nas bolas rasteiras”.

Por causa dessas qualidades, a imprensa mineira dizia que Geraldo II era o atleta perfeito. E muitos jornalistas se irritavam quando saiam listas de convocação para a Seleção Brasileira sem o seu nome. Na edição de dezembro de 1945 da revista Minas Esportiva, Januário Carneiro, fundador da Rádio Itatiaia, mandou uma carta aberta ao treinador Flávio Costa protestando pela injustiça que se cometia contra o goleiro: “E, entretanto, o nosso Geraldo II, o Geraldo II do Cruzeiro tri-campeão, o Geraldo II maravilhoso, sensacionalíssimo, soberbo, absoluto – esse ficou! Esse é mineiro, de um clube mineiro; esse não pode ir por isso… Geraldo II é modesto, Flávio; Geraldo II não tem ambição, não vive do futebol. É um mineiro pacato, humilde e trabalhador. Mas é também o maior goleiro do Brasil…”.

Mesmo quando os elogios vinham de toda parte, quando todos o queriam na Seleção (menos o treinador, é claro!), Geraldo II mantinha a serenidade. Não era de fazer onda. Desde os 16 anos quando chegou ao Palestra vindo do Tupinambás, time de várzea do bairro Calafate, ele só queria saber de treinar e jogar. Mas não fosse pelo desprendimento do titular Geraldo Cantini, veterano do tricampeonato 28/29/30 e várias seleções mineiras, talvez Geraldo Domingos não saísse tão jovem do banco de reservas.

Cantini foi quem sugeriu ao treinador Matturi Fabbi a escalação do reserva. E quando isso aconteceu, os dois foram rebatizados pela torcida e imprensa. Cantini virou Geraldo I e Domingos, o Geraldo II.

Fora de campo, Geraldo II era um pedreiro requisitado que descia dos andaimes às quatro da tarde para treinar até o pôr-do-sol. Por causa do amor à profissão, ele recusou convite para se transferir para o Botafogo. Não se via trabalhando e jogando no Rio de Janeiro. Além disso, a profissão de pedreiro era mais rentável naqueles tempos. Sem contar toda aquela rotina que o agradava: a obra, o campo de futebol e a volta pra casa sem maiores complicações.

Geraldo II era calmo mas, de vez em quando, tinha suas explosões. Duas histórias contadas pelo torcedor Nicolau Angrisano desvendam um pouco mais do seu temperamento. A primeira aconteceu numa tarde de clássico no Barro Preto, quando um atleticano resolveu tirá-lo do sério. Tentando desconcentrá-lo o torcedor rival passou o jogo atrás do gol gritando ofensas e palavrões. De vez em quando, o goleiro reagia: “Daqui a pouco, a gente acerta as contas!”

Confiando de que o goleiro, encerrada a partida, não ia se lembrar dele, o gaiato continuou com a ladainha. E pior, depois do jogo, foi tomar cerveja num bar perto de estádio. Para seu azar, voltando pra casa depois do jogo, Geraldo II viu o sujeito jogando bilhar e não pensou duas vezes. Entrou no bar, levantou o fanfarrão pelo cós da calça atirou-o do outro lado da mesa. Diante da fúria do goleiro, seus amigos escapuliram às pressas deixando torcedor enjoado esparramado no chão.

Noutra ocasião, a vítima foi o o gordo Babaró, o mais famoso locutor esportivo mineiro. Narrando o jogo sentado numa cadeira à beira do gramado, o locutor passou o 1º tempo criticando sistematicamente Geraldo II. A cada lance, falava mal do goleiro, do treinador que insistia em mantê-lo no time, dos dirigentes que não tomavam providências e da torcida que insistia em aplaudir suas defesas. Pura perseguição. Geraldo II ficou irritado, mas teve de engolir a provocação para não perder a concentração. E nem pôde acertar as contas com o radialista, pois, ao apito do juiz encerrando o 1º tempo, Babaró saiu de campo às pressas.

Tudo teria terminado bem se o narrador, movido pela curiosidade, não resolvesse xeretar o vestiário do Cruzeiro no intervalo. Para seu azar, o jogador mais próximo da porta era justamente Geraldo II que o agarrou pelo colarinho. E só a interferência dos colegas do goleiro salvou o locutor de uma grande surra. Com a camisa rasgada e um olho roxo, o locutor foi outro no 2º tempo: “Senhoras e senhores, como melhorou o goleiro do Cruzeiro. Parece que, no intervalo, alguma coisa o ajudou a recuperar a velha forma que fez dele o melhor goleiro destas Minas Gerais!”.

Geraldo Domingos jogou 354 partidas entre 1934 e 1955 (quase sempre como titular entre 1940 e 1953) e conquistou os títulos de 40, 43, 44, e 45. Isto, sem jamais abandonar o ofício de pedreiro que exerceu até aos 75 anos.

Seu melhor contrato foi assinado na gestão de Mário Grosso: 450 cruzeiros para jogar futebol e mais 350 para ajudar a construir as arquibancadas do Estádio JK durante a semana. Nos feriados e fins-de-semana, ele trabalhava de graça participando do mutirão de jogadores, associados e torcedores que construíram o velho estadinho da Av. Paraopeba, hoje Augusto de Lima.

O pedreiro Geraldo Domingos é uma legenda dos tempos heróicos do futebol mineiro. Uma lenda que o elegante Kafunga, o mais famoso goleiro da história do Atlético-MG, ajudou a construir com depoimentos como este: “Ele tem todas as minhas qualidades, e mais uma: é o goleiro mais arrojado de Minas”.

  • Páginas Heróicas, vol.1, Jorge Santana, Editora DBA, 2003.

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