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Tempos idos

sexta-feira, 30 de março de 2018

ESSE TEMPO

Álvaro Faria

Sexta-Feira Santa me leva à infância.
O silêncio da casa.
No rádio, só música clássica.
Nada de jogar bola na rua.
Lembro-me que eu me sentia profundamente triste.
Um dia de falar baixo.
Um dia de silêncio.
De muito respeito.
Eu agradeço ter vivido esse tempo.

Netflix de carnaval

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sugestões de filmes disponíveis no Netflix pra este carnaval, pela GAZETA DO POVO.

  1. A FELICIDADE NÃO SE COMPRA (It’s A Wonderful Life, 1946, EUA) — Diretor: Frank Capra. George Bailey (James Stewart) é um sujeito frustrado. Os seus sonhos não se realizaram e a sua existência foi inteiramente dedicada aos outros. Cansado da vida que leva, ele decide se suicidar. Porém, a visita de um anjo lhe fará repensar essa decisão.  Este talvez seja, ao lado de Casablanca, o maior clássico do cinema norte-americano. Até os dias de hoje, é visto religiosamente por antigas e novas gerações. Basta chegar a época do Natal para que as pessoas o revisitem ou o vejam pela primeira vez. A sua história de vida em comunidade, a maneira como reforça o poder da família e a descoberta do protagonista de que o amor pelo próximo pode ser uma vocação são profundamente inspiradoras. É impossível não se comover com os erros e acertos de George Bailey.
  2. OS DEZ MANDAMENTOS (The Ten Commandments, 1956, EUA) — Diretor: Cecil B. DeMille. Baseado na narrativa bíblica, o filme mostra a vida de Moisés (Charlton Heston) desde o seu nascimento até a velhice, passando pela carreira bem-sucedida como general, o recebimento dos Dez Mandamentos, a condução dos hebreus pelo deserto e a divisão do Mar Vermelho. No livro A Política da Prudência, Russell Kirk elenca os dez princípios conservadores. O primeiro deles é crença numa ordem moral transcendente. Ora, Os Dez Mandamentos é o filme que narra justamente a origem dos preceitos morais que guiaram as principais religiões do Ocidente e influenciaram parcialmente as leis sociais. Além disso, houve uma época em que os épicos bíblicos eram uma das principais atrações do cinema hollywoodiano. Não por acaso, o maior nome desse gênero cinematográfico foi Cecil B. DeMille e Os Dez Mandamentos é o seu melhor longa.
  3. BRAZIL, O FILME (Brazil, 1985, Inglaterra) — Diretor: Terry Gilliam. Em um futuro distópico, no qual a tecnologia e o governo exercem um poder opressor, um simples funcionário administrativo (Jonathan Pryce) tenta corrigir um erro e é considerado inimigo do Estado. No campo político, uma das coisas que os conservadores mais desprezam é o crescimento do Estado. Em Brazil –O Filme, por meiode uma sátira política, o público percebe como a burocratização estatal, quando elevada a níveis insuportáveis, se transforma num pesadelo para os cidadãos e uma inimiga da liberdade individual. Terry Gilliam disse que o título se originou do exotismo e do poder de escapismo que a palavra Brazil poderia ter para o morador de uma cidade cinzenta e industrial. No entanto, os brasileiros, diante da trama do filme, sabem que o título tem significado muito maior.
  4. A ÁRVORES DA VIDA (The Tree Of Life, 2011, EUA) — Diretor: Terrence Malick. Paralelamente a uma narrativa que recria a origem dos cosmos e as primeiras manifestações de vida, é mostrada a tentativa de reconciliação de Jack (Sean Penn) com a família, o passado, a cidade natal e Deus.  É o mais hermético desta lista. A montagem fragmentada, a narração em off e as narrativas paralelas costumam afastar o público. No entanto, quem tiver a coragem de enfrentar essas dificuldades será recompensado com uma obra de arte visualmente estonteante e uma história impactante de reconciliação e amores divino e familiar.
  5. ERA UMA VEZ EM NOVA YORK* (The Immigrant, 2013, EUA) — Diretor: James Gray. Na década de 1920, a imigrante polonesa Ewa Cybulski (Marion Cotillard) chega aos Estados Unidos, mas logo é separada da irmã na alfândega quando descobriram que esta se encontra doente. Sozinha em Nova York, ela trabalha como prostituta para o cafetão Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). O que a faz continuar esperançosa é a fé de reencontrar a irmã e voltar pra Polônia. James Gray é o melhor diretor entre os que surgiram nos meados da década de 1990 e esta  é a sua obra-prima. Mostrando destreza técnica e fazendo referências visuais aos filmes da trilogia O Poderoso Chefão, ele pinta um retrato da guerra travada entre os valores tradicionais da personagem conservadora e a corrupção moral de uma sociedade em transformação. Como em todos os seus filmes, a fé e os valores que a estruturam são essenciais pra que a protagonista permaneça forte e persistente num mundo repleto de saídas fáceis. Pra achar esse filme no catálogo é deve-se digitar “A Imigrante”.
  6. ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, EUA e Austrália) — Diretor: Mel Gibson, Desmond Doss (Andrew Garfield) é um patriota que deseja defender os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, mas em razão de sua religião ―Adventista do Sétimo Dia― e de um trauma familiar, se recusa a pegar em armas. Inicialmente, isso se torna um problema, já que os outros membros do exército não se sentem confortáveis com essa posição. Posteriormente, quando sua coragem e seus talentos como socorrista se revelam da mais alta importância, a percepção dos seus parceiros muda. Outros filmes de Mel Gibson poderiam estar aqui (Coração Valente e A Paixão de Cristo), mas além de ser o único disponível na Netflix, Até o Último Homem é o filme mais bem-resolvido do diretor. As principais características de Gibson estão presentes: o homem simples capaz de realizar atos heroicos, a violência catártica e cenas tecnicamente complexas (a batalha no topo da montanha é assombrosa). A recusa do protagonista em se armar até mesmo na guerra pode causar estranheza, mas é importante lembrar que isso não se deve a uma posição política ou social, mas por motivos pessoais e religiosos.
  7. FIRST THEY KILLED MAY FATHER (2017, Camboja e EUA) — Direção: Angelina Jolie. Durante o genocídio cambojano, perpetrado pelos comunistas, a jovem Loung Ung (Sareum Srey Moch) luta pra sobreviver e se reencontrar com os familiares.  É um filme irregular. Angelina Jolie ainda caminha em direção a um estilo cinematográfico e é possível ver que algumas escolhas são inferiores às outras. Entretanto, isso não impede que haja momentos emocionantes (muitos envolvendo o amor entre a protagonista e os familiares) e que a história mostre ao espectador como o totalitarismo do regime comunista foi um dos maiores males que já assolaram o mundo.

O gajo é Deus?

domingo, 31 de dezembro de 2017

ANABELA NATÁRIO

Era uma vez um gajo que era Deus. Quem quiser que não acredite, mas o tipo era Deus. Ela não sabia se era Cristo, Alá, se Jeová, se Buda, se até ex-faraó, mas só podia ser verdade. Toda a gente dizia que era Deus. E se toda a gente o diz…

São tantas as pessoas que lhe gritam o nome e o inscrevem em tudo o que rola… É Deus. Cristina tem tanta certeza que passou ao grupo de amigos a sua crença, apontando o dedo para Deus. De todos, Jorge era quem mais dúvidas levantara; achava aquilo um pouco disparatado, mas ela, normalmente, não mentia; conhecia-a bem, quando fugia à verdade espetava o dedo mindinho e nada disso acontecera na videoconversa. Se calhar encontrara-o… Ela apontava para um lugar vazio…

De início, ela telefonava-lhe e só lhe dizia, é Deus, estou-te a dizer! Por mais que lhe tentasse arrancar uma explicação, ela limitava-se a afirmar: Deus, mas Deus mesmo, aquele. Agora, o assunto tornara-se mais sério, ela queria levá-lo para a passagem de ano; e ele…

Jorge pondera que dizer, que fazer. Ele nem sequer é daquelas pessoas que acreditam numa só versão dos acontecimentos. Quem consegue contar uma história sem se desviar um milímetro da primeira versão escutada? É jornalista, por deformação profissional, procura factos sobre o ponto que habitualmente se acrescenta ao conto. O tipo chamava-se Deus, e depois? Há vários por aí.

Mas Cristina insistia:

— Não é só o nome. É ele, eu estive com ele. Estou com ele.

Jorge questionou, pesquisou, escarafunchou, só o facto de ser inverosímil o leva ainda a duvidar, e, claro, o facto de ser ateu. Pensou que Cristina exagerara, que as vibrações do amor lhe haviam estremecido o cérebro, distorcido as reações. Quando ela se apaixona, descontrola-se-lhe a química, estranhas verdades ocupam-lhe o espaço do raciocínio.

É óbvio que está a precisar de desanuviar a cabeça com outros pensamentos, esta pressão dos jornais, esta coisa stressante de esperar à secretária que caia a notícia, um toque de campainha, um rolar na rede, uma polemicazita…

Conforme foram trocando conversas, Jorge foi passando por diversos estágios de compreensão. O que teria acontecido à sua amiga, uma mulher experiente nas várias faces da vida?

É Deus, pronto, tem de o convidar para a festa, também não deve dar muita despesa, pensou, vencido pelo cansaço.

Um conto de Natal

domingo, 24 de dezembro de 2017

LEON TOLSTOI

Um aldeão russo, muito devoto, constantemente pedia em suas orações que Jesus viesse visitá-lo em sua humilde choupana.

Na véspera do natal ele sonhou que o Senhor iria aparecer-lhe. Teve tanta certeza da visita que, mal acordou, levantou-se e começou a pôr a casa em ordem para receber o hóspede tão esperado.

Uma violenta tempestade de granizo e neve acontecia lá fora e o aldeão continuava com os afazeres domésticos, cuidando também da sopa de repolho, que era seu prato predileto. De vez em quando ele observava a estrada, sempre à espera.

Decorrido algum tempo, o aldeão viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade em meio a borrasca de neve. Era um pobre vendedor ambulante, que conduzia às costas um fardo bastante pesado.

Compadecido, saiu de casa e foi ao encontro do vendedor. Levou-o para a choupana, pôs sua roupa para secar ao calor da lareira e repartiu com ele a sopa de repolho. Só o deixou ir embora depois de ver que ele já tinha forças para continuar a jornada.

Olhando de novo através da vidraça, avistou uma mulher na estrada, coberta de neve. Foi buscá-la e abrigou-a na choupana. Fez com que ela sentasse próximo à lareira, deu-lhe de comer, embrulhou-a em sua própria capa… Não a deixou partir enquanto não readquiriu forças suficientes para a caminhada.

A noite começava a cair… E nada de Jesus! Já quase sem esperanças, o aldeão novamente foi até a janela e examinou a estrada coberta de neve. Distinguiu uma criança e percebeu que ela se encontrava perdida e quase congelada pelo frio… Saiu mais uma vez, pegou a criança e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida ao calor da lareira.

Cansado e desolado, o aldeão sentou-se e acabou por adormecer junto ao fogo. Mas, de repente, uma luz radiosa iluminou tudo! Diante do pobre aldeão, surgiu risonho o Senhor, envolto em uma túnica branca.

– Ah Senhor! Esperei-o o dia todo e não aparecestes, lamentou-se o aldeão…

E Jesus lhe respondeu:

– Já por três vezes, hoje, visitei tua choupana: o vendedor ambulante que socorrestes, aquecestes e destes de comer, era eu. A pobre mulher a quem deste a capa, era eu. E essa criança que salvaste da tempestade também sou eu. O bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.

O urbanista genial e o caudilhete paroquial

sábado, 16 de dezembro de 2017

JAIME LERNER está completando 80 anos. Ele fez de Curitiba a melhor cidade grande pra se viver neztepaiz.

Curitiba oferece mais qualidade vida a seus habitantes do que qualquer cidade de seu porte no mundo inteiro.

Claro, claro, não conheço todas presencialmente, mas hoje em dia, num planeta inundado por imagens e infos, isto é apenas um detalhe.

Beagá e outras cidades brasileiras tentam, tardiamente, copiar projetos implantados por Lerner na Curitiba de 40 anos atrás.

Perguntado por um jornal da cidade sobre o que acha de Lerner, o caudilhete paroquial, Roberto Requião, vomitou: “Foi um bom paisagista de cidades”.

Lerner, urnamista incensado no mundo inteiro respondeu: “Eu já nem lembrava do Requião, mas percebo que pra ele eu sou inesquecível”. 

A inspeção e o controle

sábado, 19 de agosto de 2017

Trecho de “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera:

NOS PAÍSES COMUNISTAS, a inspecção e o controle dos cidadãos são atividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a expor, um simples cidadão, para obter um visto para passar férias à beira-mar, um futebolista, para poder jogar na selecção nacional, têm primeiro que recolher os mais variados relatórios e certificados (da porteira, dos colegas, da polícia, da célula do partido, do comité da empresa), que depois são amontoados, sopesados, lidos e relidos por funcionários especialmente afeitos a essa tarefa.

O que vem escrito nos atestados não tem absolutamente nada a ver com a competência de um cidadão para pintar ou jogar à bola ou com um estado de saúde que exija uma estada à beira-mar. Só contêm informações a respeito de uma coisa que é o chamado perfil político” do cidadão (aquilo que o cidadão diz, aquilo que pensa, a maneira como se comporta, se vai ou não às reuniões e aos desfiles do 1º de Maio). Como tudo (vida quotidiana, empréstimos, férias) depende da forma como se é classificado, todos os cidadãos são obrigados (para poderem jogar na selecção nacional, expor os seus quadros ou passar férias à beira-mar) a comportar-se de maneira a serem bem classificados.

Comentários, por favor.

Séries

sábado, 29 de abril de 2017

Pra relaxar antes do RapoCota:

  1. Alfa, Beta, ______, Delta e Épsilon.
  2. Barone, Mendes, Cruz, ______ e Oliveira.
  3. Felix, Carlos, ______, Wilson e Everaldo.
  4. Humberto, ______, Emílio, Ernesto e João.
  5. Guaicurus, Caetés, Tupinambás, Carijós e _____.
  6. Oscar, Marcel, Israel, Gerson e ______.
  7. Laimbeer, Edwards, Rodman, Dumars e ______.
  8. Jagger, Richards, Jones, ______ e Watts.
  9. Portela, ______, Salgueiro, Mangueira e Grande Rio.
  10. ______, Tombense, Uberlândia, Joinville e São Paulo.

Completem pra cada serie ficar perfeita.

O vencedor receberá um prêmio virtual.

Azul e branca, a maior, a campeoníssima!

quarta-feira, 1 de março de 2017

PORTELA, campeã! Saiu a inhaca, fim da fila. Azul e branca eterna! Campeoníssima

SAMBA PORTELA

Passagem de ano

sábado, 31 de dezembro de 2016

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor
[da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[doce morte com sinfonia e coral,

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Livro: A rosa do povo. In: Poesia completa.. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

O que um faz outro atrofia?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

DESPORTO E PEDAGOGIA

Antonio Aleixo

Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.

Pra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!

Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.

Da educação desportiva,
Que nos prepara pra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p’ra ceia nem pão, nem conduto.

[Fonte: Este Livro que Vos Deixo…]