Arquivo da Categoria ‘Cultura’

Spinoza

domingo, 19 de abril de 2020

SPINOZA

Jorge Luis Borges

Las traslúcidas manos del judío

labran en la penumbra los cristales

y la tarde que muere es miedo y frío.

(Las tardes a las tardes son iguales.)

Las manos y el espacio de Jacinto

que palidece en el confín del Ghetto

casi no existen para el hombre quieto

que está soñando un claro laberinto.

SPINOZA

As mãos translúcidas do judeu

lavram na penumbra os cristais

e a tarde que morre é de medo e frio.

(Todas as tardes, às tardes, são iguais.)

As mãos e o espaço de um Jacinto,

que empalidece num canto do gueto,

quase não existem para o homem quieto,

que está sonhando com um claro labirinto.

Quixote

sábado, 18 de abril de 2020

EPITÁFIO DE DON QUIXOTE

Miguel de Cervantes

Yace aquí Hidalgo fuerte
Que a tanto extremo llegó
De valiente, que se advierte
Que la muerte no triunfó
De su vida con su muerte.

(mais…)

A voz dos botequins

sexta-feira, 17 de abril de 2020

LE BRUIT DES CABARETS

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Paul Verlaine

.

Le bruit des cabarets, la fange des trottoirs,

Les platanes déchus s’effeuillant dans l’air noir,

L’omnibus, ouragan de ferraille et de boues,

Qui grince, mal assis entre ses quatre roues,

Et roule ses yeux verts et rouges lentement,

Les ouvriers allant au club, tout en fumant

Leur brûle-gueule au nez des agents de police,

Toits qui dégouttent, murs suintants, pavé qui glisse,

Bitume défoncé, ruisseaux comblant l’égout,

Voilà ma route — avec le paradis au bout.

.

A VOZ DOS BOTEQUINS

.

Paul Verlaine

.

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,

Os plátanos largando no ar as folhas pretas,

O ônibus, furacão de ferragens e lodo,

Que entre as rodas se empina e desengonça todo,

Lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,

Operários que vão para o grêmio fumando

Cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,

Paredes e beirais transpirando imundícia,

A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,

Eis meu caminho – mas no fim há um paraíso.

.

TRADUÇÃO: Guilherme de Almeida

Então queres ser um escritor?

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Então queres ser um escritor?


Charles Bukowski


se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar pra uma tela de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

Tradução: Manuel A. Domingos

Filmes pra foliões desanimados

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

FILMES antigos disponíveis no Youtube para se ver neste carnaval.

BULLIT (Estados Unidos, 1968, policial, 112 minutos, legendado, dirigido por Peter Yates, com Steve McQueen, Robert Vaughn, Jacqueline Bisset). Senador Walter Chalmers, que comanda investigação do Senado sobre a máfia, pede à policia de San Francisco para proteger durante um fim-de-semana a testemunha-chave Johnny Ross, irmão de Pete Ross, chefão de Chicago. O Tenente Bullitt e seus homens, escolhidos pra cuidar do caso, levam Johnny pro Hotel Daniels. Apesar dos cuidados, numa noite em que o Inspetor Stanton estava na vigia, o quarto é invadido por dois pistoleiros que atiram nele e na testemunha. Bullit leva os feridos para o hospital, e passa a vigiá-los, mas Ross morre. Bullit desconfia de algo errado quando Stanton lhe conta que o próprio Ross abriu a porta para os assassinos. Para que os bandidos não saibam da morte de Ross, Bullit conta com a ajuda de um médico que esconder o corpo enquanto se investiga os rastros dos assassinos.

TRAMA MACABRA (Inglaterra, 1976, suspense, dublado, dirigido por Alfred Hitchcock, Barbara Harris, Bruce Dern, Cathleen Nesbitt ) Falsa médium e seu namorado taxista são contratados por ricaça pra encontrar seu sobrinho e herdeiro, adotado quando criança. Eles procuram o rapaz em San Francisco, sem saber que ele é Arthur Adamson, que com sua parceira, Fran, enriqueceram sequestrando magnatas. E os caminhos dos quatro trambiqueiros se cruzarão.

SONHOS (Japão, 1990, drama, dublado, dirigido por Akira Kurosawa, com Akira Terao, Toshie Negishi, Mitsunori Isaki) Oito episódios relatando sonhos recorrentes do diretor japonês. No primeiro, um menino espiona a cerimônia de acasalamento de raposas. No segundo, outro menino testemunha um momento mágico no jardim. de sua casa. Em quase todos os episódios está presente a temática ambiental.

O SÉTIMO SELO (Suécia, 1956, drama, legendado, preto e branco, dirigido por Ingmar Bergman, com Max von Sydow e Bengt Ekerot) Após dez anos, um cavaleiro retorna das Cruzadas e encontra seu país devastado pela peste negra. Sua fé em Deus é abalada e enquanto reflete sobre o significado da vida, a Morte surge à sua frente querendo levá-lo, pois chegou sua hora. Pra ganhar tempo,ele a desafia pra uma partida de xadrez que decidirá se ele morre ou não. Ele precisa vencer, mas a Morte topa o desafio, pois sabe que nunca perde.

O MENINÃO (Estados Unidos, 1955, comédia, colorido, dublado, dirigido por Norman Taurog, com Jerry Lewis e Dean Martin) Wilbur se vê envolvido no roubo de um diamante. e, na tentativa de escapar do verdadeiro ladrão, se disfarça de menino e entra num trem. Acolhido por uma moça durante a viagem, é levado pra uma escola exclusiva pra moças.

Utopia natalina do poeta

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Organiza o Natal

Carlos Drummond de Andrade

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

LIVRO: “Cadeira de Balanço”, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

Dez destinos pra educar os filhos

sexta-feira, 21 de junho de 2019

FÉRIAS DE JULHO estão batendo à porta. É hora dos pais se programarem. Pra quem tem filhos entre 8 e 15 anos, minha sugestão é a de que a viagem tenha como foco a cultura: História, Geografia, Biologia etc. Praia fica pro fim de ano.

Minhas sugestões:

  1. Ouro Preto / Mariana, em Minas (barroco mineiro, um caso à parte na história da arquitetura, música, pintura e escultura mundiais)
  2. Tiradentes / São João Del Rei, em Minas (barroco, culinária, maria-fumaça etc).
  3. Parque dos Falcões, em Sergipe (40 pássaros, entre harpias, carcarás, corujas, falcoes e águias, muitos deles adestrados e amigáveis).
  4. Jardim Botânico / Centro Histórico, no Rio de Janeiro (Mata Atlântica e espécimes desplantas raras, incluindo a Vitória Régia, no Jardim Botânico, e muita história do Brasil imperial no centro). 
  5. Parques Curitibanos / Serra do Mar, no Paraná (passeio de teem descendo a serra do Mar rumo ao mar, parques temáticos e bosques incríveis em Curitiba, e o Museu “do Olho”, criado por Niemeyer).
  6. Imigração Alemã, em Santa Catarina (igrejas em estilo gótico impressionantes em Blumenau e Brusque, museu da imigração e comida alemã em Pomerode). 
  7. Museus Paulistanos, em São Paulo (Masp e Pinacoteca, com obras de  imenso valor artístico e histórico e o Museu do Futebol, no Pacaembu, que vai agradar à garotada).
  8. Pelourinho, na Bahia (arquitetura do Brasil colonial, dança, batuque e culinária local). 
  9. Recife / Olinda, em Pernambuco (arquitetura do Brasil colonial, centros de artesanato, passeios de barco pelo Capibaribe, culinária requintada e a emocionante sinagoga da época da ocupação holandesa, no Recife).
  10. Missões, no Rio Grande do Sul história das reduções guaranis promovidas pelos jesuítas).

Na área e comentários, mais tarde, vou detalhar cada atração destas.

E, pra orientar os viajantes, convocarei meu amigo Rogério Bastos, da Potencial Turismo, comentarista bissexto deo PHD, mestre na organização de viagens turísticas.

Acerto de contas do Boca do Inferno com o Divino

sexta-feira, 19 de abril de 2019

BUSCANDO A CRISTO

Gregório de Mattos Guerra

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa pra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

Vinhos para acompanhar o bacalhau

quarta-feira, 17 de abril de 2019

GUILHERME FONSECA

Semana Santa pede bacalhau e bacalhau pede vinho. Organizei uma lista de cinco brancos e cinco tintos, que harmonizam com as mais f=diversas receitas do peixe. 

Para facilitar a vida dos consumidores belo-horizontinos, a maioria dos vinhos são encontrados no Verdemar e no Supernosso.

Os portugueses apostam nos tintos com boa estrutura, mas com taninos mais leves e boa acidez pra cortar a gordura do azeite,
presente em quase todos pratos de bacalhau.

Mas há também os que preferem brancos mais encorpados, com passagem por barricas de carvalho, com boa suntuosidade, que harmonizam bem com o forte sabor do bacalhau.

Podemos dizer que bacalhau combina com vinhos brancos e tintos. Mas deve-se evitar os tintos das castas Cabernet Sauvignon,Tannat e Malbec. Já para o tradicional  bolinho de bacalhau, espumante brut, é a melhor opção.

Brancos até R$50 => Grão Vasco, R$47,  Monte da Ravasqueira Clássico, R$35,  Quinta da Garrida Encruzado Dão, R$49, Quinta da Lixa, R$49, Titular Colheita Dão, R$50, 

Tintos até R$50 => Grão Vasco, R$43, Cabriz, R$50, Fata Grande Escolha Dão DOC, R$46, Monte Col Colheita, R$46, Estremus Dão DOC, R$50.

Brancos acima de R$50 => Esporão Reserva, R$160, Muralhas de Monção, R$110, Quinta dos Loridos Alvarinho, R$93, Morande Estate Reserve Chardonnay, R$80, Alvarinho Reserva Verde, R$60.

Tintos acima de R$50 => Monte Ravasqueira Vinha de Romas, R$170, Catedral Reserva Dão, R$102, Vinha do Bispado Reserva Douro, E$90, Cabriz Reserva Dão, R$77, Foral dos Quatro Ventos, R$69.

Um grande abraço a todos, bom apetite e uma feliz páscoa.

GUILHERME FONSECA, 56 anos, cruzeirense, administrador de empresas, nascido em Belo Horizonte, enófilo desde 2002.

Ao menos estavam juntos

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

ANABELA NATÁRIO

— Meia noite!!! Viva o novo ano! — gritaram os quatro, de copo na mão, batendo com os pés, abraçando-se de seguida. Quando se olharam nos olhos – porque, dizem, as saúdes de copos assim o exigem para não amaldiçoar as relações sexuais dos próximos sete anos – não viram as mesmas caras. Quer dizer, os rostos mantinham-se, reconheciam-se, mas… os cabelos estavam brancos, os poros mais abertos, a pele talhada…

Enquanto se afastavam uns dos outros, de olhos arregalados, bocas espantadas, ninguém disse uma palavra. Não era possível, claro, pensavam. Não podiam ter envelhecido assim de um ano para o outro. Pior: de um minuto para o outro. Mas era o que viam. Portanto, a realidade apresentava-se dessa forma, havia que acreditar, só é permitido não acreditar naquilo que se não vê.

Ainda agora tinham 30 anos, mais coisa menos coisa. Para aparecerem assim, quanto tempo passara? As mãos diziam ter-se passado bastante, a pele arrepanhada demorava a voltar ao lugar. E o choro de crianças, vinha de onde? Do quarto ao lado da sala? Filhos? Netos? Mais uma impossibilidade. Nenhum deles vivia junto, sim, namoravam, eram amigos desde a faculdade, porém, ainda não tinham acordado em mais compromissos; o pula-pula dos afazeres profissionais, um emprego aqui, outro ali, a empresa que dois deles criaram e parece fazer o seu caminho, as horas a cultivar o físico, a beber copos, a olhar as redes, a postar, a escrever para poupar a língua…

Desorientados, procuram a tevê e os telemóveis para poderem olhar outros, observar outras feições, ver o que se passa no mundo. É tudo um pouco incompreensível. A grande tela incorporada na parede só fazia coisas a pedido, e os telefones por onde andavam? Só veem óculos, nanoaparelhos, um robô a surgir da cozinha, ou de onde antes era a cozinha.

Dá-se então uma corrida à casa de banho. Maria, Micaela, Tomás e Rodriguinho querem ver-se ao espelho. E, enquanto isso, apalpam a cara, puxam pelos e cabelos, largando interjeições entre uma afirmação e uma interrogação: Não pode ser! Mas o que é que está a acontecer?

A interrogativa apresenta-se desfasada. Não está a acontecer, já tinha acontecido.

Suspiram, ao menos estão juntos.

FELIZ ANO NOVO, leitores, comentaristas e amigos do PHD!