Arquivo da Categoria ‘Cultura’

O gajo é Deus?

domingo, 31 de dezembro de 2017

ANABELA NATÁRIO

Era uma vez um gajo que era Deus. Quem quiser que não acredite, mas o tipo era Deus. Ela não sabia se era Cristo, Alá, se Jeová, se Buda, se até ex-faraó, mas só podia ser verdade. Toda a gente dizia que era Deus. E se toda a gente o diz…

São tantas as pessoas que lhe gritam o nome e o inscrevem em tudo o que rola… É Deus. Cristina tem tanta certeza que passou ao grupo de amigos a sua crença, apontando o dedo para Deus. De todos, Jorge era quem mais dúvidas levantara; achava aquilo um pouco disparatado, mas ela, normalmente, não mentia; conhecia-a bem, quando fugia à verdade espetava o dedo mindinho e nada disso acontecera na videoconversa. Se calhar encontrara-o… Ela apontava para um lugar vazio…

De início, ela telefonava-lhe e só lhe dizia, é Deus, estou-te a dizer! Por mais que lhe tentasse arrancar uma explicação, ela limitava-se a afirmar: Deus, mas Deus mesmo, aquele. Agora, o assunto tornara-se mais sério, ela queria levá-lo para a passagem de ano; e ele…

Jorge pondera que dizer, que fazer. Ele nem sequer é daquelas pessoas que acreditam numa só versão dos acontecimentos. Quem consegue contar uma história sem se desviar um milímetro da primeira versão escutada? É jornalista, por deformação profissional, procura factos sobre o ponto que habitualmente se acrescenta ao conto. O tipo chamava-se Deus, e depois? Há vários por aí.

Mas Cristina insistia:

— Não é só o nome. É ele, eu estive com ele. Estou com ele.

Jorge questionou, pesquisou, escarafunchou, só o facto de ser inverosímil o leva ainda a duvidar, e, claro, o facto de ser ateu. Pensou que Cristina exagerara, que as vibrações do amor lhe haviam estremecido o cérebro, distorcido as reações. Quando ela se apaixona, descontrola-se-lhe a química, estranhas verdades ocupam-lhe o espaço do raciocínio.

É óbvio que está a precisar de desanuviar a cabeça com outros pensamentos, esta pressão dos jornais, esta coisa stressante de esperar à secretária que caia a notícia, um toque de campainha, um rolar na rede, uma polemicazita…

Conforme foram trocando conversas, Jorge foi passando por diversos estágios de compreensão. O que teria acontecido à sua amiga, uma mulher experiente nas várias faces da vida?

É Deus, pronto, tem de o convidar para a festa, também não deve dar muita despesa, pensou, vencido pelo cansaço.

Um conto de Natal

domingo, 24 de dezembro de 2017

LEON TOLSTOI

Um aldeão russo, muito devoto, constantemente pedia em suas orações que Jesus viesse visitá-lo em sua humilde choupana.

Na véspera do natal ele sonhou que o Senhor iria aparecer-lhe. Teve tanta certeza da visita que, mal acordou, levantou-se e começou a pôr a casa em ordem para receber o hóspede tão esperado.

Uma violenta tempestade de granizo e neve acontecia lá fora e o aldeão continuava com os afazeres domésticos, cuidando também da sopa de repolho, que era seu prato predileto. De vez em quando ele observava a estrada, sempre à espera.

Decorrido algum tempo, o aldeão viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade em meio a borrasca de neve. Era um pobre vendedor ambulante, que conduzia às costas um fardo bastante pesado.

Compadecido, saiu de casa e foi ao encontro do vendedor. Levou-o para a choupana, pôs sua roupa para secar ao calor da lareira e repartiu com ele a sopa de repolho. Só o deixou ir embora depois de ver que ele já tinha forças para continuar a jornada.

Olhando de novo através da vidraça, avistou uma mulher na estrada, coberta de neve. Foi buscá-la e abrigou-a na choupana. Fez com que ela sentasse próximo à lareira, deu-lhe de comer, embrulhou-a em sua própria capa… Não a deixou partir enquanto não readquiriu forças suficientes para a caminhada.

A noite começava a cair… E nada de Jesus! Já quase sem esperanças, o aldeão novamente foi até a janela e examinou a estrada coberta de neve. Distinguiu uma criança e percebeu que ela se encontrava perdida e quase congelada pelo frio… Saiu mais uma vez, pegou a criança e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida ao calor da lareira.

Cansado e desolado, o aldeão sentou-se e acabou por adormecer junto ao fogo. Mas, de repente, uma luz radiosa iluminou tudo! Diante do pobre aldeão, surgiu risonho o Senhor, envolto em uma túnica branca.

– Ah Senhor! Esperei-o o dia todo e não aparecestes, lamentou-se o aldeão…

E Jesus lhe respondeu:

– Já por três vezes, hoje, visitei tua choupana: o vendedor ambulante que socorrestes, aquecestes e destes de comer, era eu. A pobre mulher a quem deste a capa, era eu. E essa criança que salvaste da tempestade também sou eu. O bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.

O urbanista genial e o caudilhete paroquial

sábado, 16 de dezembro de 2017

JAIME LERNER está completando 80 anos. Ele fez de Curitiba a melhor cidade grande pra se viver neztepaiz.

Curitiba oferece mais qualidade vida a seus habitantes do que qualquer cidade de seu porte no mundo inteiro.

Claro, claro, não conheço todas presencialmente, mas hoje em dia, num planeta inundado por imagens e infos, isto é apenas um detalhe.

Beagá e outras cidades brasileiras tentam, tardiamente, copiar projetos implantados por Lerner na Curitiba de 40 anos atrás.

Perguntado por um jornal da cidade sobre o que acha de Lerner, o caudilhete paroquial, Roberto Requião, vomitou: “Foi um bom paisagista de cidades”.

Lerner, urnamista incensado no mundo inteiro respondeu: “Eu já nem lembrava do Requião, mas percebo que pra ele eu sou inesquecível”. 

A inspeção e o controle

sábado, 19 de agosto de 2017

Trecho de “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera:

NOS PAÍSES COMUNISTAS, a inspecção e o controle dos cidadãos são atividades sociais permanentes e essenciais. Um pintor, para ser autorizado a expor, um simples cidadão, para obter um visto para passar férias à beira-mar, um futebolista, para poder jogar na selecção nacional, têm primeiro que recolher os mais variados relatórios e certificados (da porteira, dos colegas, da polícia, da célula do partido, do comité da empresa), que depois são amontoados, sopesados, lidos e relidos por funcionários especialmente afeitos a essa tarefa.

O que vem escrito nos atestados não tem absolutamente nada a ver com a competência de um cidadão para pintar ou jogar à bola ou com um estado de saúde que exija uma estada à beira-mar. Só contêm informações a respeito de uma coisa que é o chamado perfil político” do cidadão (aquilo que o cidadão diz, aquilo que pensa, a maneira como se comporta, se vai ou não às reuniões e aos desfiles do 1º de Maio). Como tudo (vida quotidiana, empréstimos, férias) depende da forma como se é classificado, todos os cidadãos são obrigados (para poderem jogar na selecção nacional, expor os seus quadros ou passar férias à beira-mar) a comportar-se de maneira a serem bem classificados.

Comentários, por favor.

Séries

sábado, 29 de abril de 2017

Pra relaxar antes do RapoCota:

  1. Alfa, Beta, ______, Delta e Épsilon.
  2. Barone, Mendes, Cruz, ______ e Oliveira.
  3. Felix, Carlos, ______, Wilson e Everaldo.
  4. Humberto, ______, Emílio, Ernesto e João.
  5. Guaicurus, Caetés, Tupinambás, Carijós e _____.
  6. Oscar, Marcel, Israel, Gerson e ______.
  7. Laimbeer, Edwards, Rodman, Dumars e ______.
  8. Jagger, Richards, Jones, ______ e Watts.
  9. Portela, ______, Salgueiro, Mangueira e Grande Rio.
  10. ______, Tombense, Uberlândia, Joinville e São Paulo.

Completem pra cada serie ficar perfeita.

O vencedor receberá um prêmio virtual.

Azul e branca, a maior, a campeoníssima!

quarta-feira, 1 de março de 2017

PORTELA, campeã! Saiu a inhaca, fim da fila. Azul e branca eterna! Campeoníssima

SAMBA PORTELA

Passagem de ano

sábado, 31 de dezembro de 2016

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor
[da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[doce morte com sinfonia e coral,

que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do [acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Livro: A rosa do povo. In: Poesia completa.. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

O que um faz outro atrofia?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

DESPORTO E PEDAGOGIA

Antonio Aleixo

Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.

Pra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!

Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.

Da educação desportiva,
Que nos prepara pra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.

E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.

Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheiteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.

Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.

E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p’ra ceia nem pão, nem conduto.

[Fonte: Este Livro que Vos Deixo…]

Conto de Natal

sábado, 24 de dezembro de 2016

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

O António não disse nada, mas foi isso que despertou as suspeitas da mãe. O pequenito estivera muito calado desde que voltara da escola nessa tarde. Ao jantar ela finalmente perguntou o que se tinha passado. Depois de alguma hesitação, a criança contou:

“Hoje a professora perguntou o que é o Natal. Uns disseram que era a festa do Pai Natal, outros que era o dia das prendas e outros que era a festa da família. Quando eu disse que o Natal é o dia dos anos do Menino Jesus todos se riram, e a professora ficou um bocado zangada. Disse, muito séria, que isso era uma explicação dogmática e subjectiva. Oh pai, o que é isso?”

Os pais ficaram visivelmente atrapalhados e o silêncio dominou o resto do jantar. Mas no final, o pai pegou no António ao colo, levou-o perto do Presépio que estava na sala e perguntou ao pequenino:

“António, vês alguma escola aqui no Presépio?» O António confessou que não via nenhuma.

«Achas que no tempo de Jesus havia escolas?” O rapazinho disse que havia de certeza.

“Tens razão», continuou o pai. “Mas não há nenhuma escola no Presépio. Agora imagina o que aconteceu quando, no dia seguinte ao Natal, este pastorinho pequenino que vês aqui de lado com a ovelhinha ao colo, foi contar na escola aquilo que tinha visto na noite anterior. O que terão dito os colegas e a professora, quando ele contou que viu os Anjos no Céu a cantar e que encontrou o Menino Deus deitado numa manjedoura? Que achas tu que eles fizeram?”

“Devem ter-se rido dele, e não acreditaram.”

“Também acho”, concordou o pai. “E que achas que o pastorinho pensou nessa altura?”

Depois de meditar um pouco, o pequenino respondeu: “Deve ter ficado muito triste, porque os colegas dele não sabiam que aquilo era mesmo verdade.”

“Isso mesmo! Não ficou zangado, não ficou envergonhado, não ficou assustado. Ficou muito triste, porque os amigos não acreditaram, nem queriam saber daquela coisa maravilhosa que ele sabia que tinha visto.”

A mãe, que estava ali ao lado, a acompanhar a conversa, interveio:

“Vês, António, tu estás como o pastorinho. Tu sabes que o Natal são os anos do Menino Jesus. É por isso que há prendas, festa e as famílias se reúnem. O Pai Natal é apenas o ajudante do Menino Jesus para essas coisas, mas o que é realmente importante no Natal são os anos do Menino Jesus.”

“Que posso eu fazer para os meus colegas e a professora perceberem que isso é mesmo verdade?”

Mais uma vez os pais ficaram embaraçados. Mas a mãe interrompeu o silêncio dizendo:

“Podes perguntar ao Menino Jesus. Ele ainda não chegou ao nosso Presépio, porque só vem na noite de Natal, mas já está ali em cima daquele armário, com Nossa Senhora e São José. Vamos ali rezar-lhe e perguntar o que devemos fazer.”

“Mas mãe”, discordou o rapaz, “esta coisa importante tem de se perguntar na igreja, onde o Menino Jesus está mesmo, no sacrário, como diz o senhor padre.”

Os pais sorriram e a mãe disse: “Está bem. Amanhã saímos mais cedo e, antes de irmos para a escola, passamos pela igreja e tu perguntas isso ao Menino Jesus. Rezas por ti e pelos teus colegas e professora, e perguntas o que deves fazer.”

No dia seguinte, ao jantar, o pai quis saber como tudo se tinha passado. A mãe contou que tinham ido à igreja antes de chegarem à escola, e que rezaram para que os meninos e professores aprendessem o que é o Natal. O António manteve-se calado, mas quando a mãe acabou, ele disse: “Amanhã eu quero levar na mochila aquele Menino Jesus de madeira que temos nas palhinhas no armário da sala.”

Novo silêncio. A mãe não concordou: “Ó António, não faças isso. Vais sujar, perder ou partir o Menino Jesus. O melhor é Ele ficar aqui e tu falas com Ele, como fazes na igreja. A nossa casa é muito mais calma e segura do que o recreio ou a sala de aula. O melhor é o Menino Jesus ficar aqui.”

O pequeno respondeu: “Mãe, eu acho que o Menino Jesus quer ir à minha escola. Vou ter muito cuidado, mas Ele não tem medo de ficar sujo ou partido. Sabes, Ele estava no Céu descansadinho, onde nunca se sujava nem magoava, e quis vir cá abaixo para estar connosco. Aqui Ele ficou sujo, mas não se importou. Na missa disseram que Jesus até disse aos amigos que O iam matar na cruz. Ele sabia isso, mas, mesmo sabendo, quis vir. Se veio assim, também quer ir à minha escola. E lá ninguém lhe faz mal.”

Depois de novo silêncio, continuou: “No Céu cheira tão bem. Já pensaste o que é ir daí ao Presépio? Com o estrume do burro e da vaca, ainda devia cheirar pior no Presépio do que na casa de banho da escola. E eu não o levo à casa de banho.”

Paixão

sexta-feira, 25 de março de 2016

Sexta-feira da Paixão das antigas tinha voto de silêncio, jejum, música sacra no rádio, filme bíblico no cinema, reflexão sobre o sentido da vida cristã, procissão, Verônica cantando no descendimento do Senhor crucificado, tochas e tambores. Hoje, tem churrasco e jogo do escrete brasileiro.