Aristóteles Lodi, palestrino de primeira hora

Por Jorge Angrisano Santana | Em 2 de janeiro de 2010

                                              Ouro Preto, 10abr95; Vitória, 29mar68

O estádio do Palestra Itália, na Avenida Paraopeba -atual Augusto de Lima- foi o palco do jogo Cascatinha 8×1 Veteranos, em 03mai31.

Formado por ex-atletas do Palestra, o Cascatinha jogou com

  • Limões, Nocchi e Pede; Baptista, Palu e Bepe; Valério, Gallo, Ruffolo, Hespanhol e Ciccone.

O Veteranos tinha os seguintes dirigentes e fundadores do Palestra:

  • Lage, Lavalle e José Necésio do Carmo; Juca Savassi, Lydio Lunardi e Hamleto Magnavacca; Jeronymo Corte Real, Hugo Savassi, Tolentino Miraglia, Plínio Lodi e Aristóteles Lodi.

Encerrada a partida de 80 minutos, os times se dissolveram e jamais se enfrentaram novamente.

O que não acabou tão cedo foi o festival, um dos muitos organizados para preencher os domingos sem partidas do campeonato da cidade.

O Estado de Minas de 05mai31 contou como foi a festa:

  • “O programa esportivo da festa do Palestra no domingo, cuidadosamente escolhido, estava composto de corridas, saltos, jogos de basketeball e, por fim, uma partida de foot-ball entre os veteranos palestrinos… Findou a festa com grande distribuição de chopps, doces etc que entreteve o pessoal no campo dos periquitos até o cahir da noite.”

Cascatinha era nome do bar onde jogadores, diretores e adeptos do Palestra se reuniam pra tomar chope, jogar bocha e discutir futebol.

Ficava na Tupinambás com Afonso Pena e tinha, entre seus frequentadores os irmãos Plínio e Aristóteles Lodi, a ala esquerda dos Veteranos.

Palestrinos de primeira hora, os Lodi participaram das reuniões preparatórias para a criação da Società Sportiva Palestra Italia, realizadas nos fundos da Casa Ranieri, em dezembro de 1920.

Estiveram também na assembléia de fundação, na Casa D’ Itália -Tamoios, entre Espírito Santo e Rio de Janeiro-, em 02jan21.

A Família Lodi veio de Crevalcore, comuna próxima a Bologna, na região da Emilia Romagna.

O patriarca Evaristo, nascido em 05out1866, casou-se, no Brasil, com Celestina Mazzonetti, nascida em Vicenza, no Veneto, em 06out1872.

O casal estabeleceu-se em Ouro Preto, onde Evaristo instalou um armazém de secos e molhados.

Com a fundação de Belo Horizonte, eles se mudaram para a nova Capital, de olho nas oportunidades oferecidas por uma cidade em construção.

Foi assim que surgiu a Casa Evaristo Lodi -Tupinambás com São Francisco (atual Olegário Maciel)-, fornecedora de ferragens para as obras da cidade.

Aristóteles, filho mais velho de Evaristo, foi quem redigiu a verbale da fundação do Palestra.

A ata foi escrita em italiano, a língua familiar dos 72 participantes da reunião.

Em 1928, Elvira Lodi, irmã de Arsitóteles e Plínio, foi eleitapelos associados, uma das grã-duquesas do Palestra.

Durante a gestão de Lydio Lunardi -1931/32-, Aristóteles foi tesoureiro e Plínio, diretor social do clube periquito.

Nos Anos 30, os Lodi começaram a se afastar do Palestra. Elvira casou-se com o artilheiro Ninão e mudou-se pra Roma em 1931, quando o marido foi contratado pela Lazio.

Em 1935, Plínio e Aristóteles, junto com seus irmãos Osmundo e Álvaro, fundaram uma marcenaria em Belo Horizonte. Nessa época eram apenas torcedores de um clube que havia se profissionalizado.

Em 1940, mudaram-se para Aimorés, fronteira entre Minas e Espírito Santo, onde instalaram uma serraria e nunca mais voltaram a Belo Horizonte.

Virgínia Lodi, filha de Aristóteles, conta que, numa das habituais crises financeiras do Athletico, seus dirigentes pediram conselhos a Aristóteles.

Prontamente, seu pai subiu a colina de Lourdes e passou algumas semanas organizando a contabilidade do rival citadino.

Para os Lodi, o esporte ia além das rivalidades de campo. Como tantos adeptos do amadorismo, que se opuseram ao profissionalismo, o futebol deveria unir, jamais separar as pessoas.

Este princípio está expresso nos versos que o centroavante do Veteranos, Tolentino Miraglia, escreveu para o Hino do Palestra, composto pelo Maestro Arrigo Buzzacchi, em 1922.

  • Que seja o Palestra, / escola elevada / por nós consagrada / à força e ao valor / Porque se de fato / na luta renhida / tão bela partida / soubemos ganhar / não temos conosco / razão que nos há de / cortar a amizade / e os ódios gerar

Os Lodi retiraram-se do esporte na hora certa. A nova ordem, surgida com a adoção do profissionalismo, não correspondia ao que eles imaginavam ser o papel do esporte.

Nos Anos 30, a rivalidade entre os clubes mineiros acirrou-se a ponto de campeonatos serem interrompidos, ligas dissidentes formadas e conflitos nos estádios se generalizarem.

No auge das disputas, as duas maiores cidades de Minas, Belo Horizonte e Juiz de Fora, romperam relações esportivas impedindo a formação de uma única liga profissional.

Foi nessa época que os Lodi e, com eles, grande parte dos jogadores do Cascatinha e do Veteranos, quase todos mecenas do Palestra, abandonaram o futebol.

Eles deixaram dois legados.

A lição de que o esporte deve servir pra fazer amigos e, sobretudo, o Cruzeiro Esporte Clube que, hoje, completa 89 anos muito bem vividos.

  • Livro: Páginas Heróicas, vol II.

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