Ademir Kaefer, um lutador

Por SÍNDICO | Em 26 de agosto de 2006

Toledo (PR), 06/01/60

Ademir Roque Kaefer sempre foi um sujeito sincero. “Foi no Cruzeiro que aprendi a jogar futebol” – declarou certa vez. E a torcida cruzeirense reconhece nele um professor de futebol. Não do futebol artístico de tantos de seus ídolos, mas do futebol aplicado, valente, raçudo. Sem ser craque de futebol exuberante, o “alemão” era um lutador. Atleta responsável. Profissional em tempo integral.

Ademir vestiu a camisa azul-e-branca 439 vezes e marcou 9 gols. Um deles, na final da Supercopa da Libertadores de 1991, contra o River Plate, entrou para a história. Foi o gol que marcou o início da melhor fase do clube celeste em toda a sua história, a que se inicou no Anos 1990.

Em depoimento à Revista do Cruzeiro ele conta seu gol histórico: “Comizzo espalmou a bola para escanteio. Marquinhos bateu no primeiro pau. Eu fechei junto com o zagueiro Rivarola e, graças a Deus, fui mais feliz e desviei a bola para as redes. Foi o gol mais importante da minha vida porque saiu na hora certa, no final do 1º tempo. A partir daí, cada jogador se multiplicou, fizemos mais dois com Mário Tilico e conquistamos o título.”

A história de Ademir, por ele mesmo: “Comecei nos juniores do Toledo Futebol Clube, em 1978. Em 1980, disputei meu primeiro campeonato paranaense de profissionais e também o Brasileiro de Juvenis e a Copa São Paulo de Juniores. Em 1981, fui para o Internacional, de Porto Alegre, onde joguei até março de 1986, quando me transferi para o Santo André. Em outubro daquele ano, vim para o Cruzeiro e fiquei aqui até maio de 1992 quando recebi proposta para jogar no Racing, da Argentina. Fiquei por lá até março de 1993 e voltei para o Cruzeiro, onde encerrei a carreira em dezembro de 1995.”

Ademir foi colecionador de títulos. Pela Seleção Brasileira, ganhou medalhas de prata nas Olimpíadas de Los Angeles e de Seul. E de ouro, no Panamericano de 1987. Com a camisa do Cruzeiro, foi campeão mineiro em 87, 90, 92 e 94, campeão da Supercopa em 91, da Copa do Brasil em 93, e das Copas Ouro e Master da Confederação Sulamericana em 95.
 
Além da raça, Ademir tinha perfeita consciência de sua responsabilidade perante clube, torcida e companheiros de equipe. Na Supercopa de 91, o Cruzeiro deve a ele muito mais do que o gol que abriu o caminho para o título. Deve o equilíbrio de um time que teve que enfrentar a fúria das torcidas sulamericanas.

Um de suas atitudes na competição definiu bem seu senso de responsabilidade. Depois de acertar o pênalti que eliminou o Olímpia, Nonato correu em direção às tribunas do Defensores del Chaco para devolver ofensas sofridas desde desembarque do time em Assunção. Ademir não permitiu o desatino. Tratou de tirar o companheiro da confusão que se armava. Mais do que o Capitão, ali estava o líder que mantinha o grupo unido e centrado no objetivo de levar o Cruzeiro a um título internacional quinze depois do primeiro, a Libertadores de 1976.

Ademir se emociona ao lembrar um episódio ocorrido antes do jogo contra o River: “No dia da decisão da Supercopa, o time estava muito preocupado com as dificuldades que teríamos para reverter os 2 x 0 do jogo de ida. Afinal, o River Plate era um time muito forte. Pela manhã, fui visitar um antigo roupeiro do Cruzeiro, o José Pascoácio, que trabalhou mais de trinta anos no clube e era muito querido pelos jogadores. Ele estava muito doente, por isso tirei uma parte da manhã para ir á casa dele, mesmo sabendo que o mais recomendável era me manter concentrado somente no jogo. Mas foi bom ter ido lá. Ele estava tão precoupado quanto nós. Queria saber se estávamos confiantes. Se eu achava que dava pra fazer os três gols de diferença. Fiquei tão emocionado, que lhe prometi uma vitória de qualquer jeito. De volta à concentração, contei aos companheiros a promessa feita. E todos concordaram comigo: o título seria o melhor presente que poderíamos dar ao amigo de tantas jornadas. Valeu. À noite, parecia que o Pascoácio estava em campo conosco. Corremos como nunca pra lhe dar uma última alegria. Foi inesquecível.”

Dr. Ronaldo Nazaré, médico do Cruzeiro por mais de 30 anos, conta outra passagem reveladora do caráter guerreiro do Camisa 5. “A fase do Cruzeiro no Brasileiro de 91 era péssima. O time lutava, mas as vitórias não vinham. Pra piorar, Ademir começou a sentir dores no joelho. Fiz o exame e cheguei concluí ser necessária uma cirurgia. Ele aceitou, mas disse que só ia se internar depois que o risco de rebaixamento estivesse eliminado. Mas como o time não se acertava, ele também não parava de jogar. Sem saber do que acontecia, a imprensa o criticava. Dizia que ele estava fazendo corpo-mole. Eu quis esclarecercer a situação, mas ele não permitiu. Sua garra foi essencial para unir os colegas e livrar o Cruzeiro do descenso.”

Entre 21 de abril e 5 de maio de 1991, o Cruzeiro ficou 5 partidas sem vencer. Perdeu para Bahia (0 x 2) e Flamengo (0 x 2), em casa; Fluminense (0 x2) e São Paulo (1 x 3), fora. E empatou com o Grêmio (0 x 0), no Olímpico. Na última rodada, em 19 de maio, o Sport tinha 10 pontos, Vitória e Grêmio, 12 e o Cruzeiro, 13. Era preciso vencer o Palmeiras, no Estádio Independência, para afastar o risco de rebaixamento. Expulso contra o São Paulo, Ademir não pôde jogar. Mas os companheiros prometeram-lhe a vitória. E cumpriram: 2 x 0, gols de Nonato e Charles.

Atualmente, Ademir vive no Paraná onde cria frangos e gado de corte e planta soja. Sempre com a mesma seriedade com que se dedicou ao futebol. Quando está em casa, acompanha o Cruzeiro pela TV. Quando vai para a fazenda, acompanha os jogos pelo rádio. E se não consegue sintonia, pede inrformações pelo telefone.

Em Belo Horizonte, a torcida mantém vivas suas lições. Não aceita atletas desinteressados e sem fibra. Para vestir a camisa do Cruzeiro, craque ou não, o jogador precisa incorporar a garra e a valentia do grande capitão dos Anos 80 e 90.

8 comentários para “Ademir Kaefer, um lutador”

  1. Franklin Bronzo disse:

    Jorge : até me emociono ao ler seu comentário sobre esse notável Ademir Roque Kaeffer. Penso como vc deixa nas entrelinhas. Nosso clube já nasceu com a vocação de luta e do trabalho honesto. Não é fruto de devaneios pueris de rapazes bem-nascidos e endinheirados. Representou, no início, o sonho de imigrantes que, forjados na esperança de dias melhores, viram-no como um lenitivo à sua labuta diária em busca de adaptação à nova pátria. E que, logo a seguir, num ato pioneiro, abriu suas portas a todas as etnias que formam este país, sendo pioneiro, até mesmo, na admissão de pessoas antes excluídas nos clubes de elite. Assim, seria natural que seus adeptos e atletas passassem a ter, como apanágio, essa característica de luta e trabalho honesto para atingir os seus objetivos, afrontando, muitas vezes, como ocorre até os dias de hoje, a má-vontade de setores privilegiados da sociedade. Por que disse tudo isso? Porque penso que o Cruzeiro, por seus dirigentes, deveria sempre estabelecer, como premissa à admissão dos atletas que devam representá-lo, esse caráter de retidão moral e honestidade que vc relembra no Ademir, antes mesmo de cogitar de outros atributos técnicos. Penso que o Cruzeiro poderia e deveria lutar por voltar a ter, nos seus quadros, homens da estirpe de um Ademir Kaeffer, de um Wilson Piazza, de um Tostão, de um Raúl Plassmann, de um Zé Carlos Bernardes, como pré-requisito de sua presença no time. Temos de recordar nossas origens e valorizar, antes de mais nada, o espírito que iluminou os seus pioneiros.

  2. Mauro França disse:

    Bela e merecida homenagem ao Ademir. Agora fica faltando uma pro Douglas.

  3. Jorge Santana disse:

    Obrigado, Bronzo. É isto, mesmo. Temos que valorizar nossa história e dela tirar os melhores exemplos. Quanto ao Douglas, França, aguarde. E nesta hora complicada, temos de trazer de volta os lutadores que fizeram este clube vencedor. Que sejam exemplos para atletas e torcedores qyue têm a missão de recuperar o clube neste returno de campeonato.

  4. Walterson disse:

    Jorge, lendo estas histórias eu vejo que não conheço muito da história recente do Cruzeiro. Morando em São Paulo desde os anos 80, não acompanhava o time naquele tempo das vacas magras, porque a imprensa daqui não dava uma linha sobre o time, somente mostravam os gols (principalmente sofridos). Fora algumas notícias sobre as conquistas e sobre o Fenômeno. Somente a partir de 1998 comecei a acompanhar as notícias pela internet. Pra ter uma idéia, no Brasileiro de 2003 só tinham transmitido 2 partidas do Cruzeiro antes do jogo contra o Paysandu. Depois transmitiram todas (Flu e Bahia). Mas é muito bom conhecer as histórias destes guerreiros azuis. Espero ansioso pela do Douglas.

  5. Cláudio Ianni disse:

    Eu estava lá neste dia maravilhoso !

  6. Jorge e Franklin, bela e justa homenagem a um cara que era líder dentro de campo e também fora dele. Eu me lembro como se fosse hoje quantas crises contornou e quantas vezes ajudou aos seus colegas nas renovações de contrato. Tem uma passagem que ele foi no César e pediu ao presidente que desse uma molhada no bolso do Célio Lúcio e Nonato, porque os caras estavam jogando por 4 na defesa e com o salário baixo. O César fez a análise e viu que era justo, chamou os 2 e fez o acerto, não sem antes falar que eles deviam o café para o Alemão. O cabecinha saiu igual a pinto no lixo… Ademir fez naquele dia contra o River Plate o gol mais importante da sua carreira, mas, salvou inúmeras situações de risco e era inteligente no posicionamento em campo. Ademir Roque Kaeffer um líder nato… E podem anotar aí, que o Gladstone tem perfil de líder e mesmo sendo jovem vai se impor…É questão de tempo… Que partida fez o garoto de Vila Velha/ES hoje. Simplesmente soberba. Não errou nada e ainda fez um gol lá na frente.

  7. Flávio Vieira disse:

    Grande Ademir. Superou a sua limitação técnica com a seriedade, a disciplina e, sobretudo, o amor à camisa do Cruzeiro. Ficará eternamente gravado no coração cruzeirense. Ianni: eu também estava lá, mais propriamente atrás do gol. Ademir teve a sua dedicação de anos presenteada naquele dia. Histórico.
    Ao Ademir, a minha gratidão e admiração.

  8. Jorge Santana disse:

    Flávio, em pelo menos um quesito técnico Ademir era insuperável. Com a camisa do Cruzeiro, foi o jogador que melhor virava o jogo dos que acompanhei. Volante ao pé da letra. Abs, JS