A jequice impactante

Por SÍNDICO | Em 24 de julho de 2014

Grenoble, 15 de julho de 2014

Olá Jorge,

Tempão que não nos falamos, não é mesmo?  Espero que tudo esteja indo bem com você.  Continuo lendo frequentemente o PHD, mas não tenho muito tempo para participar das discussões.

Aqui vão alguns comentários esparsos sobre as reações da mídia francesa, televisiva e escrita, sobre a Copa do Mundo.

De uma maneira geral, ouvi apenas elogios quanto à organização e o desenrolar dos eventos. Senti os comentadores da televisão constrangidos quando o público vaiava a nossa presidenta.  As pessoas com que eu conversei por aqui reprovaram a atitude, qualquer que fosse a razão.

Ouvi e li muitos elogios às manifestações dos brasileiros contra a FIFA, mas acredito que o pessoal daqui andou fazendo uma leitura errada das verdadeiras intenções dos Black Blocs e dos baderneiros que foram às ruas.

Um fato curioso, foi a reação à simulação do Fred no pênalti contra a Croácia.  Os três comentaristas da TF1, Bixente Lizarazu, Franck Leboeuf e Arsène Wanger, condenaram veementemente a atitude, pedindo mesmo punição da FIFA para o atacante.  O árbitro japonês passou por simples vítima do jogador.

Fora isto, ouvi várias críticas às atitudes extra-esportivas dos jogadores brasileiros. Por exemplo, este texto, escrito com muito humor, foi publicado em francês no site Cahiers du Foot logo após a semifinal:

Segue abaixo minha tradução do mesmo para o português.

Abraços,

Rafael Laboissière

POR QUE A SELEÇÃO BRASILEIRA ME ENCHEU O SACO

Visant

Alegrar-se com a eliminação fulminante do Brasil seria desumano, e até mesmo pouco inteligente.  Isso não me impede de enumerar o que a Seleção fez de extraordinariamente irritante durante a Copa do Mundo.

É engraçado, eu me sinto finalmente aliviado pelo fato do Brasil ter caído fora.  No entanto, sempre tive simpatia, ou mesmo uma forma de admiração pelo futebol deste país no passado.

Mas este ano, toda a dramatização extra-esportiva (ou para-esportiva, em suma, deixo de lado o futebol em si, que foi mais do que medíocre) me irritou a um tal ponto…
Segue um resumo do que me deixou exasperado. Atenção, assumo o meu humor ácido!

  1. Entrar em campo de MÃO NOS OMBROS. Parecia uma fila de condenados caminhando para a forca. Felizmente, eles não jogaram de uniforme laranja, pois isto daria margem a confusão. Se você deseja ficar marcado logo de cara e colocar um pressão louca através de um simbolismo desnecessário, nada melhor do que esta maneira de entrar em campo. Bônus track: Todo mundo tinha que esperar 40 segundos a mais, o tempo necessário para que a lagarta chegasse ao local da execução dos hinos.
  2. HINO BERRADO a capela. A intenção inicial talvez tenha sido boa, criando-se algo de original, a ser compartilhado com o público, mas o resultado acabou sendo deveras… pitoresco. Digamos que uma só vez teria sido interessante, mas seis vezes foi chato demais.  Até porque todo mundo anunciava a coisa como algo ex-tra-or-di-ná-rio e que o silêncio solene era imposto para admiração do momento de “graça”. Résultado: uma espécie de cacofonia absoluta, além de histérica, com os jogadores assumindo um aspecto demoníaco.  Parecia a primeira fileira de fãs em um show do Slipknot. http://goo.gl/KtxWVI Bônus track: Você perde cerca de 25% de sua energia física e mental, antes mesmo do início da partida.
  3. CHORORÔ incessante. Antes do jogo?  Eu choramingo.  Durante o jogo?  Eu choramingo. Após o jogo? Eu choramingo.  Os jogadores se lamentaram perpetuamente. Eu acho mesmo que alguns jogadores choraram foi de desespero, por não saber a razão pela qual os seus companheiros estavam choramingando. Bônus track: De repente, o público começa a pensar: “Deve haver uma boa razão para tanto choro, então vou chorar também.”
  4. CLAMAR O SENHOR 472 vezes por dia. Esta equipe deveria ser treinada por um pastor (ou pela Sarah Palin). Não foi o festival do “joga bonito”, mas sim o festival do “dê graças a Deus”.  E mesmo quando o próprio Deus não aguenta mais tanto louvor e demonstra que ELE gostaria de assistir aos jogos em paz (daí o 7×1), aí, bom, o primeiro reflexo dos jogadores brasileiros é recomeçar a reza.  E tome cuidado, véi, o próximo passo será o raio enviado diretamente em seus dedos levantados ao céu, se Ele estiver num momento de mau humor, o Zeus! Bônus track: Além do mais, o papa é argentino, lol.
  5. A GLORIFICAÇÃO DE NEYMAR. Nada contra o garoto de talento impressionante, que fez uma Copa do Mundo notável. No entanto, atribuir-lhe o papel de mártir executado na batalha contra os vilões colombianos, aí já é demais. Foi ridícula a ostentação da camisa de Neymar pelo capitão David Luiz durante os hinos. Um amigo meu achou “maravilhoso”, enquanto eu quase engasguei com meu vômito. Ainda bem que o cara não morreu, senão teriam sido capazes de carregar o corpo ao entrar em campo. Bonus track: Imagine os hinos de Portugal vs. Gana com dezessete camisas dos portugueses contundidos.

Em suma, a seleção brasileira não apenas apresentou um futebol pobre, mas também me encheu o saco.

Eu não tenho provas, mas acredito que este circo todo, estas cerimônias, esta ostentação, esta histeria individual e coletiva acabaram por abalar os jogadores.

É melhor ir pensando numa maneira de se livrar de tudo isto a fim de redirecionar o foco para o futebol e a vitória.

52 comentários para “A jequice impactante”

  1. É a Era Petê em que vivemos: pibinho, inflaçãozona, currais eleitorais, anão diplomático, seleção jeca, funk, esquenta, sertanejo universitário etc.

    • Nonato disse:

      antes o caso fosse apenas sumir com o PT do executivo federal, e esta degeneração desaparecesse todinha, como se ela mesma nao fosse um processo muito maior e mais antigo que o partido em questao. O PT é muito mais o produto, o reflexo e a extensão, do que qualquer outra coisa. Acusar um partido, que está há 8 anos no poder, por causa de um processo gigantesco e ancestral de imbecilização é basicamente varrer a sujeira pra debaixo do tapete, nao?

    • Nonato disse:

      nao estou livrando a do PT em nada. so nao consigo me convencer de que tirar o PT sera a soluçao, E digo issso, em parte, pelas possibilidades de substituição. Mas, enfim, que Nossa Senhora, Sede da Sabedoria, se apiede de todos nós, brasileiros e de qualquer outra nacionalidade.

      • Nonato disse:

        entao, blogueiro, trocar PT por PSDB vai melhorar a mentalidade do brasileiro em quê e por quê? estou esperando uma resposta plausivel pra essa redução de `eras` muito mais do que infame. Por favor, elabore mais.

  2. Não vi a babaquice das mãos nos ombros. Não assisti um só pré jogo.

    • Paulo Rafael disse:

      Sorte sua, foi constrangedora. Vi só as duas primeiras. Não me aguentando de vergonha alheia, passei a me dedicar integralmente às cervejas durante o pré-jogo.

  3. Hino berrado é cópia de jequice francesa. Selecionamos sempre o que há de pior pra copiar. E, convenhamos, não existe hino mais boçal, ridículo e grotesco do que o francês, que os jogadores de rugby cantam aos berros e os fãs do esporte da Iespien acham o máximo.

    • Paulo Rafael disse:

      Não fomos os únicos. Chilenos também berraram e argentinos cantarolavam a parte instrumental.

  4. Chororô é artigo de primeira necessidade pra cartolas, torcedores e jogadores brasileiros. E vai o sujeito reclamar pra ver quanta psicologia lhe atiram na cara. Melhor se acostumar com essa idiotice brasileira.

  5. O senhor joga neztepaiz. E ajuda os dois times, por isto quando a partida não termina empatada, muito torcedor do time derrotado vira ateu. Francisco tem de tomar providências urgentes.

  6. Glorificar Neymar é fichinha. Tem beócio que glorificou Jô e Bernard. É de chorar de rir.

  7. teixeira disse:

    Quem tinha uma postura racional quanto a tudo isto, antes do 7×1, era taxado de mau brasileiro até pelos “amigos” e alguns familiares. Eis aí mais um legado para uma copa que merecia era mesmo mais delegados e menos desses “legados”.

  8. Hércules disse:

    A carta do Rafael foi interessante. Deveria ter encerrado com suas próprias considerações, ao invés de reproduzir essa chatice repetitiva (agora internacional) do site francês. A caçação de indaca quando time perde é um porre.

  9. Ernesto Araújo disse:

    Pois eu achei ambos os textos EXCELENTES. Tanto o do Rafael pelas informações quanto o do jornal francês. O texto fez lá suas graças, mas com respeito e bom humor e, concordo com muita coisa que foi dita nele. Essa Seleção Copa 2014 foi um grande LIXO. Talvez a pior de todos os tempos, fora e dentro de campo, mesmo tendo ficado em quarto lugar, o que, para nós que conhecemos futebol, talvez sido uma posição ocupada de fato mas não de direito.

    • Ernesto Araújo disse:

      Em tempo: Alguns contra-pontos feitos pelo JS nos comentários são válidos. Mas não entendo que os nossos erros devam ser justificados (e muito menos repetidos) em função dos erros dos outros.

    • Hércules disse:

      Tivéssemos futebol pra ter ganhado a Copa, e por isso perdemos, FALTOU FUTEBOL (não por choro de jogador, penteados etc.) estariam com outra ladainha, ufanista, também chata, de “capela contagante”, “pátria das chuteiras”, “união verde-amarela”. Tudo isso bobajada post mortem.

      • Ernesto Araújo disse:

        Ok, Hercules. Não digo que fomos derrotados por causa disso. Claro que não. Mas o meu sentimento – talvez oculto por eu estar torcendo pela Seleção – é o mesmo do francês, ou seja, a Seleção – dentro e fora de campo – estava realmente enchendo o saco. Aliás, só pra ilustrar o que você disse, no Sportv, Fábio Canavarro ao ver as imagens dos felizes alemães nas praias baianas…

      • Ernesto Araújo disse:

        … fez um comentário irônico, mais ou menos dizendo o seguinte: “Quando se ganha, tudo se justifica. Mas imagino a cobrança lá na Alemanha se eles perderem. Vão falar um monte dessas idas à praia e da boa vida germânica no Brasil”

      • Ernesto Araújo disse:

        Com relação ao Brasil, o que mais me incomdou – além do futebol nulo em campo – foi a choradeira permanente. Nunca vi isso. O choro, que deveria vir num momento de grande superação e vitória ou de uma grande tristeza, virou cena fácil para os jogadores da Seleção. O excesso acabou por desvalorizar o gesto e o que era nobre virou pejorativo.

  10. Celeste disse:

    Eu, no jogo da abertura, quando vi capitão do time, o primeiro da fila, com cara de quem tinha chorado já nos vestiários percebi que a copa seria difícil. O choro ali foi medo de perder porque todos tinham consciência que o preparo foi ruim. Esse tipo de atitude fortalece o adversa´rio. Imagine você leitor, numa entrevista para emprego, enquanto aguarda na sala de espera, vê seu concorrente chorando.

    • Ernesto Araújo disse:

      Perfeito, Dra. Tenho certeza que, o maior fantasma que assombrou a Seleção não foi aquele de 50 da publicidade da Seleção Uruguaia, nem mesmo croatas, mexicanos, camaroneses, chilenos, colombianos, alemães ou até argentinos. O grande fantasma que a todo instante assombrava e fazia chorar nossos jogadores era a consciência de que o time não estava bem e o fracasso era iminente. Fracasso muito mais temido pelo fato da Copa ser em casa.

    • Palmeira. disse:

      Eu arrisco dizer que aquele cartão que o Tiago Silva levou contra a Colômbia, foi de caso pensado mesmo, para não ter que enfrentar a Alemanha. Cagaço mesmo! Aquela atitude é de quem quer forçar o cartão amarelo. E ele deve ter torcido muito para a FIFA não ter aceito o pedido de anulação feito pela CBF.

    • Eduardo Arreguy Campos disse:

      O sujeito entra no avião em uma noite de chuva e se depara com o piloto ajoelhado, chorando e se benzendo. Quem seguiria viagem?

  11. Celeste disse:

    Gostei do texto, mas não vi o nome do articulista, acho que é o sumido do Rafael.

    • Rafael Laboissière disse:

      Sim, sou eu.

      • Laboissière, mande sua ficha técnica, pois o blog está cheio de novos leitores e comentaristas.

      • Celeste disse:

        Ok Rafael. O título e a campanha do Cruzeiro no ano passado teve alguma repercussão por aí? Abraços.

      • Rafael Laboissière disse:

        O futebol brasileiro passa quase despercebido do grande público aqui na França. Por outro lado, os profissionais da mídia e do futebol sabem um pouco mais sobre o futebol tupiniquim. O Arsène Wanger, comentarista da TF1, bem lembrou durante a transmissão da semi-final que o Mineirão é a casa do Cruzeiro, que ele identificou como o atual campeão brasileiro. Entretanto, um outro comentarista se enganou ao dizer que o Jô estava jogando em casa…

    • Celeste disse:

      Jorge, está na hora de atualizar a ficha técnica de todo mundo.

  12. Hércules disse:

    SELEÇÃO DE 1994. “Pressionada pelos maus resultados na caminhada rumo ao Mundial dos Estados Unidos, a Seleção, então comandada por Carlos Alberto Parreira, resolveu entrar em campo contra o Paraguai naquele jogo de mãos dadas. O Brasil venceu goleou por 6×0 e aquela entrada em campo virou marca registrada do grupo tetracampeão”. Fonte: Globoesporte.com 10set12

  13. Naldo disse:

    “Senti os comentadores da televisão constrangidos quando o público vaiava a nossa presidenta. As pessoas com que eu conversei por aqui reprovaram a atitude, qualquer que fosse a razão.” De acordo.

  14. S@muel disse:

    Eu já enchi o saco da selecinha há muito tempo.

  15. J.A.Fagundes disse:

    O meu já se encheu, quando anunciaram o trio Felipão/ Parreira/ Murtosa para o comando da mesma. No mais, o texto francês, é um resumo bem elaborado de quase todos os fatores, que levaram a seleção da CBF/Nike à derrocada. A crônica de uma morte anunciada, mas com final, que nem mesmo o grande Gabriel Garcia Máquez poderia imaginar.

  16. Hendrix disse:

    Pois eu concordo com ambos os textos. Seleção chatíssima. pieguice o tempo inteiro. Não merecia outra sorte.

  17. O Brasil terminou a Copa onde deveria ter terminado, mesmo. Pode-se discutir se a Colômbia, por exemplo, merecia estar nas semifinais comparando-se o futebol dos dois times. Mas a verdade é que no manoamano, os cafeteros não deram nem pra saída.

  18. DILMA ROUSSEFF: “Meu governo é Padrão Felipão”. Se o francês tivesse sido informado disto, teria mais material pra comentar jocosamente.

  19. J.A.Fagundes disse:

    Não teria, necessariamente, que ser um trio, mas um técnico de conceitos mais modernos, que realmente treinasse o time e não apenas um entregador de camisas para um grupo formado e fechado, um ano antes do mundial, como foi o caso. Como se diz, seleção é momento e, o mais importante, é se definir a forma de jogar, selecionando-se então, os melhores atletas, que naquele momento, possam se adaptar a esta filosofia.

  20. Tem uma coisa: a seleção francesa tb tem suas piadas prontas, a começar pelo hino absolutamente ridículo, que alguns berram, mas outros, como Benzema, envergonhados, não cantam.

  21. J.A.Fagundes disse:

    Marcelo Oliveira! rsrsrs

  22. Walterson disse:

    O 2 foi porque a Fifa, inexplicavelmente, colocou apenas um pequeno pedaço do hino e nem a metade, como sempre foi colocada nos jogos. Já o interminável hino de Camarões foi tocado quase na íntegra.

  23. Nonato disse:

    Graças ao Bom Deus nem todo mundo precisou de um artigo francês pra notar tudo isso.

  24. 1. Concordo… parecia anões da Branca de Neve. Ridículo !!!
    2. Concordo… gritos histriônicos sem nem saber o que significam as palavras.
    3. Concordo… coisa típica de famiglia que quer dar as desculpas previamente.
    4. Concordo… e concordo demais… este negócio de “graças a Deus” tá passando das medidas. Completamente irracional.
    5. Concordo… era a única saída… ganhar no mkt e glorificação.