1975, a minha Libertadores

Por SÍNDICO | Em 9 de abril de 2010

Toninho Almeida

Quando penso nos desafios da Libertadores, volto ao passado. Principalmente, à Libertadores que vivenciei como atleta do Cruzeiro, a de 1975.

É uma experiência diferente para qualquer atleta. Ainda mais para um daqueles tempos heróicos.

Com o vice-campeonato brasileiro de 1974, o time conquistou uma vaga pra disputa da competição sul-americana de 1975.

Neste torneio, tudo é mais difícil. Todos os times se reforçam pra disputá-la. Nossos adversários, sejam quais forem, se desdobraram dentro de campo.

Começamos bem o torneio de 75 superando o Vasco e os colombianos Deportivo Cali e Nacional de Medellín, na 1ª fase.

Na fase semifinal, que era disputada em dois grupos, de três equipes, o Cruzeiro pegou os argentinos Rosário Central e Independiente.

Em Belo Horizonte, vencemos ambos por 2×0 e ficamos na liderança do grupo. Nos jogos de volta, contudo, o time participou de uma verdadeira guerra.

Na primeira partida, em Rosário, a equipe foi hostilizada desde o desembarque na cidade.

À noite, no hotel, torcedores do Central, fizeram barulho e soltaram foguetes pra nos intimidar.

No meio de toda a confusão, passei por uma situação inusitada. Recebi a visita de dois estudantes de Teófilo Otoni, Samir e Leopoldo, em nosso hotel.

Eles haviam sido presos políticos e, agora, estavam exilados em Rosário, como tantos outros brasileiros. Fiquei emocionado com o relato das dificuldades pelas quais passavam.

E eles me disseram que o Cruzeiro também teria dificuldades devido à agressividade dos rosarinos.

A partida foi tensa do início ao fim. Moedas e pedras foram atiradas nos jogadores cruzeirenses durante todo o jogo.

Perdemos por 3×1 com o último gol dos argentinos marcado em impedimento no final da partida.

Quando o banco do Cruzeiro se levantou para protestar, a polícia jogou gás lacrimogêneo para nos dispersar.

As agressões não pararam por aí e a delegação teve de sair escoltada do estádio.

Contra o Independiente, podíamos perder por uma diferença de dois gols pra chegar à decisão do torneio, mas um gol olímpico no início da partida desestabilizou a equipe.

Nada deu certo para o Cruzeiro que acabou desclassificado com a derrota de 3×0.

A eliminação custou o cargo do técnico Ílton Chaves, que vinha de quatro temporadas bem sucedidas à frente do elenco.

Antônio Gonzaga de Almeida, Toninho Almeida, 59, meio-campista do Cruzeiro nos Anos 70, detentor do Belfort Duarte por nunca ter sido expulso em 288 partidas, nasceu em Teófilo Otoni-MG, mora em Belo Horizonte onde é o Coordenador de Divulgação do Campos de Luz, programa da Cemig.

56 comentários para “1975, a minha Libertadores”

  1. Jorge Santana disse:

    Se perdemos por causa da má educação dos argentinos, por que mandaram o treinador embora? Será que ele deveria ter enfiado a mão nos hermanos pra dar sossego ao time?

    • Naldo disse:

      Mandar treinador embora é uma forma antiga de alguem pagar o pato no futebol. E o pessoal de Rosário é selvagem até hoje.

  2. Jorge Santana disse:

    Ou será que tem trigo nesta parada? Ou general visitando o vestiário do Cruzeiro?

  3. walfrido disse:

    Sensacional o post. Confesso que Toninho Almeida, até por minha idade, não estava na minha lista de top10 de ídolos… mas cada dia mais esse cara nos emociona e surpreende com textos super legais, históricos. Sensacional!

    • A grande barreira do Toninho Almeida foi aquele time que ele tentou ser titular. Seria titular em muitos outros times. Deu “azar” por estar na hora e lugar onde a carreira individual dele foram sacrificadas em função do time/equipe.
      Além dele, existem muitos nomes que sofreram ou ficaram ofuscados no Cruzeiro com esta situação.
      Merecem os PARABÉNS aqueles que, como o Toninho Almeida, permaneceram.

  4. Gleyton disse:

    Os tempos hoje são outros e este nível de intimidação não existe mais. Afirmar que os argentinos usavam deste tipo de recurso para vencer, porque de fato usavam e quem viveu isto como Toninho Almeida estão aí pra testemunhar, não significa necessariamente acreditar que os argentinos ganhavam só por isto. Os clubes argentinos têm história, tradição, apelo popular. Naturalmente seriam grandes campeões da América. Ao lado disto tudo, no entanto, utilizavam de outros recursos como a intimidação agressiva.

  5. Celeste disse:

    Mais um ótimo post do Toninho Almeida. É muito bom escutar essas histórias na voz de um personagem dela. Em 1987 fui à Juiz de Fora num casamento e o Ilton Chaves estava hospedado no mesmo hotel, junto com um time de futebol. Não sei se qual era o time. Nessa mesma viagem encontrei pela pela primeira vez uma camisa oficial do Cruzeiro. Comprei e levei de presente para meu irmão (pai do garoto que está no meu avatar). Espero que o nosso caro Toninho volte a escrever nesse espaço.

  6. walfrido disse:

    Jorge, te mandei um email. Se vc aprovar seria interessante postá-lo o mais berve possível pra tentar esclarecer o zumzumzum das bombas, tracks e etc… Valeu.

    • Jorge Santana disse:

      Vou ler mais tarde. Imagino que se trata de material explosivo. De Deixar o Velho Damas insone.

      • walfrido disse:

        Não, esclarece coisas que já estão por aí na internet, mas não tem muita coisa não. Mas era bom postar pra fechatr esse zumzumzum que ficou em aberto durante o dia de hj pois estive fora. Obrigado.

    • Acho dificil.p JS publicar isso Wall…vamos aguardar

      • walfrido disse:

        Já leu?

      • Rogério disse:

        Acabei de ler, até as noticias ruins, no fundo podem ser boas, o capital tem que girar.

      • walfrido disse:

        Concordo, e tem mais, não tem como inchar ainda mais o elenco. Um plantel tem que ter craques titulares absolutos, titulares, gente pra compor, reservas, etc… Imagina um elenco de meio de campo com Henrique, Paraná, Fabinho, Fabricio, Gilberto, Roger, Valdivia, Bernardo… Seria excelente pra nós, mas imagina domar essas feras no dia a dia e ter que cortar pelo menos uns 3 do banco e botar mais uns 2 desses no Banco? Complicado. Até nisso tem que pensar. Mas repito, é tudo apenas sondagem e/ou negociação. Não tem nada fechado. Quando fechar e se fechar, eu aviso, como foi no caso do Vanderley, Kieza, Alessandro, Camilo e outros.

      • Rodrigo Gomes disse:

        Tem esse lado mesmo, mas pra entrar gente tem que sair alguns, como você mesmo falou no email bomba, então acaba que o elenco sempre fica numa quantidade boa. Bem, apesar das perdas, se tudo o que você listou acontecer, acho que ficaríamos mais fortes ainda.

      • Rogério disse:

        Nem precisa explicar que estas noticias são sondagens, quem critica quando a noticia não se confirma é muito sem noção, se as noticias fossem 100% confirmadas, já teriam saído no site oficial.

  7. Rodrigo-bsb disse:

    esses jogos da Libertadores de 75 por nao tyerem sido transmitidos e pela ausencia de imagens virarame stofo de lenda. Uma história como esta vista por dentro é muito enriquecedora. Eu como nao compro essa idéia de que o melhor sempre ganha, tenho certeza que em condicoes normais aquele time do Cruzeiro nao teria perdido o jogo. E ainda por cima, o Hilton Chaves botou o time atras, um time que so sabia jogar ofensivamente. Foi demitido logo depois. Ainda bem.

    • Rogério disse:

      Dylan, o terror dos treinadores, mas realmente, se ele colocou um time daquele para jogar retrancado foi um grande pecado.

    • walfrido disse:

      Merece menção honrosa a capacidade do Dylan de citar o AB mesmo que seja nas entrelinhas das entrelinhas… ehehehehe.

    • Jorge Santana disse:

      Confusão mental é pouco. O melhor não venceu pq as condições não foram normais. E o treinador era retranqueiro. Vai ver rolou trigo na prada. Ou visita de general ao vestiário do Cruzeiro. Quem sabe um telefonema de Mr. Kissinger? E, no final das contas, o timinho do Independiente foi campeão. Timinho inexpressivo incapaz de levantar Libertadores sem ajuda de esquemas. A Iespien tem onde cavar audiência.

      • Sobrinho disse:

        Interessante é que mesmo com televisão e nao quantas cameras, e sem esse tipo de coisa acontecendo os brasileiros continuam assistindo os argentinos ganharem Libertadores, vai entender!

      • Jorge Santana disse:

        Ganham com ou sem trigo. Com ou sem General. Com ou sem secretário de estado. São mesmo danados esses hermanos.

  8. Marc3lo disse:

    O Cruzeiro tinha uma verdadeira seleção essa época, é lógico que os argentinos não eram pernas-de-pau,mas se hoje em dia os times brasileiros ainda reclamam do estilo da libertadores,esse relato de quase 40 anos atrás mostra bem como era complicado a conquista da América.

  9. Binho disse:

    Toninho, me lembro só por rádio dessa libertadores. Sei que foi roubada. Não foi o juiz como no brasileiro de 74. Não foi na bola, como em 75. Foi no extra campo. Perdemos e isso está na história. O que sobrou disso ? O título em 76. O aprendizado. A malandragem, O time amadurerceu e encarou a disputa de outra forma. Não enxergo a experiência como algo ruim. Fomos campeões no ano seguinte graças a isso. Não foi bâo, foi útil. Um abração cruzeirense.

  10. Vinicius Cabral disse:

    Também gostei da história.

  11. Jorge Santana disse:

    Continua o mistério: se o Cruzeiro era melhor e só perdeu por conta da catimba argentina. por que, então, demitir o treinador? Por acaso, ele teria se juntado aos fogueteiros da madrugada pra atazanar seu próprio time?

    • Binho disse:

      Dirigente é competente JS ? Desde quando ? Perdeu ? Demite-se o técnico. Nada mudou.

      • Binho disse:

        Ou seja, se perde o técnico não presta. Se ganha, ele tem pouca ou nenhuma importância.

      • Binho disse:

        Identificou ?

      • Mauro França disse:

        Nem sempre. E o Ilton Chaves estava no comando do time desde 72, é bom lembrar, tinha perdido um Brasileiro um ano antes.

      • Mauro França disse:

        E o Adilson continua no cargo, mesmo perdendo a LA (pra desgosto de uns poucos).

      • Binho disse:

        Mauro, como sempre seus comentásrios são sempore convenirentes, quando e na hora que lhes convém.. AB é uma aberração entre treinadores e você sabe disso. Ou você dirá que é regra ? Me giga quantos duraram mais de um ano com a dulpa ZZ e Av ?

      • Binho disse:

        ZZ e AP ? O

      • Mauro França disse:

        Levir foi um. Felipão saiu porque quis. Outras demissões, como a do Luxa, não tiveram a ver com o rendimento do time.

      • Binho disse:

        Sorry. Você entendeu mas talvez os outros não. Os manos azuis pesoal.

      • Mauro França disse:

        Binho, não estou discordando de vc. Os dirigentes sempre demitem o treinador para esconder os seus próprios erros. É a regra. Quis apenas ressaltar que no caso do Ilton Chaves havia mais coisas além das derrotas em 75, pelo tempo que ele estava à frente do time, desgaste com jogadores e outras coisas.

      • Rodrigo-bsb disse:

        se nao houvesse troca de comando em 75 o Cruzeiro simplesmente nao teria encido a Libertadores. E essa historia de que os dorogentes sempre botam a culpa no treinador é uma balela. O Hilton Chaves fazia o Joaozinho jogar recuado. Consultemas reistas da época se nao acreditam em mim ou se nao se lembram. A torcida queria ele fora do time. Foi o Zeze Moreira que o Joapzinho considerava um pai o homem que revcelou o Joaozinho que todo mundo conhece. Um, treinador pode sim limitar o potencial de um time e lhe causar graves danos.

  12. Mauro França disse:

    Em uma entrevista de 76, o Palhinha fala que o time não estava preparado psicologicamente para enfrentar a pressão. Nas entrelinhas, fica claro que o time tremeu. Só isso. Acontece.

    • Binho disse:

      Se estivessem preparados, teriam sido campeões mundiais e não só da América do Sul ? Foi isso que o Palhinha disse ?
      Não vi a entrevita.

  13. Binho disse:

    Aliás, gostaria de ver qualquer torcedor, mesmo mais velho, exaltar treinador. VOcê é historiador. É diferente.

  14. Jorge Santana disse:

    O Independiente era melhor do que o Cruzeiro. Tinha mais time. Tinha melhores jogadores. Tinha mais pegada. Era copeiro e não doméstico. Venceu por 3×0 porque precisava vencer por 3×0. Segundo Raul Plassmann, teria vencido de mais se fosse preciso. Já deu esta história de que os argentinos venciam por causa da catimba, por causa da doação de trigo, da ajuda dos generais ou do secretário de estado norte-americano, porque comprava o goleiro etc e tal. Isto é conversa de espertalhões pra enganar os lorpas.Uns vendendo no´ticias, outros pagando pelo lixo que lhe empurram gole abaixo.

  15. Jorge Santana disse:

    E não duvido nem um pouco do relato do Toninho. Faz parte do show o que ele vivu e viveu. América latina é um canto esquecido do mundo à espera da chegada do processo civilizatório. Uma lugar onde aberrações históricas como comunistas e ditadores ainda dão as cartas. Agora, falando sério: time de categoria não perde duas quando empatar uma basta. Nem com foguetório, gás lacrimogênio e gritaria de torcedor. Perde porque não dá conta de vencer. Simples assim.

  16. Rodrigo-bsb disse:

    perde por vários motivos, pela postura c.overde de um treinador, por pressoes de diversos tipos. Esse tipo de explicacao que o melhor sempre ganha é de um somplismo absurdo. Tanto que foi esse mesmo time com uma ou duas modificacoes que levou a Libertadores de 76. E a América Latina é mesmo uma aberracao..por causa do trabalho escravo que ainda campeia por aqui, pela distribuicao de renda vergonhosa,pelos alário que se paga a um trabalhador comum pelo asssassuinato de líderes trabalhistas e outras vergonhas.

  17. Naldo disse:

    E o texto do Toninho confirma o que o já se sabe. Ganhar Libertadores é pra quem pode, é tarefa hercúlea.